sábado, 17 de dezembro de 2011

Tempo e Sonho III

Todo psiquiatra, bem como qualquer um que lide com o ofício de curar mentes neuróticas, também é um neurótico. E uma coisa é certa: adoramos tudo sobre o Woody Allen. Ele é o Dostoievski contemporâneo, e é engraçado. Não possui o ranço dos russos cheios de neve, e é judeu, o que o torna mais engraçado ainda, e inteligentíssimo. Não fosse judeu não seria nada. Tenho um paciente do qual não cobro um vintém. Pois ele não tem acesso a dinheiro ainda. Tem apenas 15 anos e está sentado no meu divã neste exato momento. É um adolescente, mas tenho certeza de que quando olho para ele estou olhando para o Woody Allen. Embora sua família seja rica, dona de concessionárias de automóveis, o tratam como o filho pródigo que veio na hora errada. Acho que sou o único com quem ele profere palavras.

Tem 15 anos e, juro por Jesus e toda a sua trupe, não faço a menor ideia de como ele entrou no meu apartamento, visto que estava sozinho e ele não possui a chave. Quando entrei ele já estava lá. Mas também  isso não importa . Pedi um minuto para ir ao banheiro, e ao invés disso engoli um caroço de noz-moscada. Só a noz salva!



Não costumo relatar as conversas que tenho com meus pacientes, mas essa é necessária. O moleque é astuto. Me contou que colocaram no rol de entrada do prédio dele uma árvore de natal. Estamos em época de natal, não é? Pois bem... continuando. Colocaram uma árvore de natal que parecia uma rave cheia de exctasy, sei lá como se soletra isso... Bom.... semana passada o menino passava pelo corredor, onde fica a árvore piscante, e deu de cara com a  síndica do prédio. O menino pediu um minuto de atenção, encarou a horrorosa e amedrontadora velha  e disse:

- Cara senhora, gosto do natal, acho as árvores cintilantes lindas, porém não acho justo que meus pais sejam obrigados a contribuir com os seus custos através da taxa do condomínio, portanto gostaria de solicitar o abatimento do que não nos é devido.

A senhora horrorosa respondeu impávidamente, quase sem mexer as feições, repletas de botox:

- Amiguinho... todos no prédio são responsáveis pela árvore. Ela é para todos e portanto foi comprada por todos, inclusive seus pais, os quais não podem utilizar de tal abatimento.

- Minha senhora, com todo o respeito à sua religião, mas eu e meus pais somos judeus, nós achamos linda a árvore, e não possuímos qualquer tipo de preconceito, porém não pertencentes à sua religião não nos sentimos na obrigação de contribuir com os custos e compra de linda árvore.

A velha conseguiu mexer uma célula botuliforme e mandou na lata:

- Queridinho... Seus país serão cobrados sim, enquanto a árvore piscar.

O menino respondeu agora com um jeito engraçado:

- Minha flor... A árvore pisca porque quer, não porque meus pais assim desejam. Portanto eu peço o abatimento...

Foi interrompido pela desagradável mulher:

- Amor... enquanto a árvore piscar, toda vez que seus pais passarem por ela, eles terão que pagar por isso!

(silêncio tenso e constrangedor)

- Querida.... eu não pago nada cada vez que passo pela senhora e sua boceta pisca, não é?

Foi o que ele disse. O resto do relato faz-se desnecessário, pois o que importa na vida não são as desgraças e sim as suas razões. Pelo menos para os psiquiatras como eu.




Esse mesmo menino, me contou que seu maior medo não era o de morrer, e sim de morrer virgem. Isso me remete de novo ao bom e velho Woody Allen. Woody com certeza morre de medo de morrer. Não há dúvidas que sua obra tão vasta e insistente continua a existir, ano após ano, pelo simples fato dele morrer de medo de morrer. Morrer de medo de morrer é por sí só uma frase engraçada. Uma tremenda e quase redundância nonsense. Pense bem... Mas não é a toa que o velho Woody, já ancião Allen, tem o T.O.C. de lavar as mãos a cada segundo, e sempre cantando a velha canção "Happy Birthday to You..." duas vezes seguidas. Pois sabe-se que isto determina o tempo necessário para que todos os germes desapareçam numa lavada de mãos.

O maravilhoso do Tempo é justamente isto. Como um sujeito pode ter medo de criar vida enquanto outro possui o medo de descriar vida. E quem sofre são os germes que nada têm a ver com isso, e que afinal, sabe-se muito bem, constituem a maior população do planeta. Acho que uma visão mais humana da teoria da relatividade de Einstein seria a questão da perspectiva de cada olhar de acordo com a sua velocidade no Universo. É óbvio que ao ficarmos mais velhos tudo nos existe de forma mais lenta, e assim exstimos lerdos como podemos ser, até que um dia paramos e pronto. Portanto a visão do Woody é a mesma que a do menino de 15 anos sentado em minha poltrona divanesca. Apenas o movimento das coisas entre estes dois personagens muda, de tal maneira a criar uma ilusão, à qual cada um acredita e enxerga de sua forma e perspectiva. No fundo somos os mesmos. Seria uma teoria absurda, seguindo o contrário do pensamento filosófico grego de que um rio nunca é o mesmo rio, uma vez que as águas correm.

Mas outra história deste menino muito me obstinou a entrar mais a fundo em suas neuroses tão nervosamente humanas...


(continua)


3 comentários:

CarolSandov disse...

Muito bom! E viva o Woody, rei de todos os neurótico!!!

Patresio Camilo disse...

pois o que importa na vida não são as desgraças e sim as suas razões.


fantástico...
E viva os neuróticos!

Anna Jô disse...

Vc está cada vez melhor. Definitivamente, temos um escritor nacional de peso.