segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Cabeça de Vulcão

As vezes me dá uma tristeza que é como pedra. Saída de um vulcão que não sei definir ainda, e que com o tempo vai ajuntando mais pedras à sua volta, e vai me rodeando, e me circulando, e prendendo meus pés, e me envolvendo as mãos, e me sufocando as narinas, e me agarrando os cabelos, e invadindo meus ouvidos, e quando de repente percebo, sou eu, pedra também.

As vezes me dá um medo de que esse vulcão que me flagela com sua chicoteada inerte e causticante, ao mesmo tempo que, se me constrói, vai me apagando, apagando, e em determinado momento desapareço num monte de  granito de magma.

E sinto que esse vulcão é feito de sabedoria e experiências. Que vai cuspindo em mim todas as bobagens, todos os erros que cometi, como se eu fosse um presidiário de minha própria cadeia. E com esse cuspe de dureza pétrea, vai me ensinando como regar um jardim chamado Eu. E sinto então, um medo terrível, e que me consome todas as noites, e todos os dias, que é o medo de apenas descobrir a Minha Verdade no momento derradeiro de vida. Que é como ser enterrado vivo. 


Seremos todos um dia enterrados vivos pelas nossas próprias verdades cuspidas de nossos vulcões de vida. À cada vez que compreendemos, mais somos enlaçados na impossibilidade advinda do tempo. Se eu tivesse 12 anos não teria perdido a virgindade num puteiro... não teria buscado amor no lixo...não teria viajado sozinho sem saber o que acontecia aos meus pais...não teria me deixado sucumbir apenas à educação de terceiros, mesmo que com amor... se eu tivesse 15 anos teria mandado todos os meus professores à merda, e teria perdido o ano com dignidade de quem sabe o que quer...se eu tivesse 25 anos, eu saberia como realizar o meu querer, como sei, ou pelo menos tenho esperança de que sei...agora. 

Não temos idéia de nada. Nem nunca tivemos, nem nunca teremos. Nem nossos pais tiveram, nem terão neste exato momento. A idade não vai apenas nos envelhecendo e nos deixando para trás. A idade vai deixando os outros para trás, e antes que nos demos conta, venceremos a corrida, e estaremos sozinhos. Envolvidos pela poeira da pista, pelo público maldito, tentando nos jogar de cima de um pódio surrealista.

Tenho medo quando lembro que João Cabral de Melo Neto, o grande poeta do concreto, do "não-amor", do niilísmo vulcânico, morreu rezando e implorando perdão a um Deus que não acreditou durante toda uma vida e obra.



Tenho medo de um dia entender a vida quando me for tarde demais. E tenho "admiração" pelos ignorantes, que pensam chamar a atenção do mundo com aforismos tirados de livros de banca de jornal, e que provavelmente nem entendem o peso, a massa, a pedra com que foram enlaçados os intelectuais (de verdade), proprietários de tais aforismos. Se um idiota paga 10 reais pra postar num "site de relacionamentos" coisas que ele pensa entender. Esse idiota, por exemplo, morre e não sabe. Sorte dele, não é? Ser um otário completo e não saber. Um brinde à idiotice de alguns! Clap! Clap! Clap!

Acho que um dia, se eu chegar aos 95 anos, que pretendo, no meu leito de morte vou temer gritar "eureca!". E vou temer achar que estarei gritando, quando na verdade estarei sussurrando ao mundo minha tardia descoberta . Terei sido coberto por completo pelo meu próprio vulcão de vida, explodirei como uma supernova, e espalharei as cinzas do conhecimento pelo Universo, em meu próprio solo. E de lá, quem sabe, brotará, um ramo de alecrim.




5 comentários:

Patresio Camilo disse...

então todos somos meros vulcões, sem saber para onde vamos e para onde mandamos as coisas...
belo texto!

Anna Jô disse...

Vc é um escritor para no mínimo meia dúzia de livros publicados. De altíssimo nível...amo vc compondo e escrevendo...

Alan Sommer disse...

Obrigado!!!

Luciana Coló disse...

Alan, adorei os seus textos.
São lindos!
Tomara que você chegue aos 95, e se não chegar, não tem problema, é como se já tivesse...
Um beijo.

Alan Sommer disse...

Obrigado, Lu!
Apareça mais vezes!
beijos
Alan