domingo, 16 de outubro de 2011

O Bar

Tão imprevisível é o mundo quanto este texto. Imagine um bar qualquer, situado num bairro sujo de Bucareste. Lá fora faz um frio de congelar mosquitos voando. Dentro do bar a temperatura beira os 15 graus célcios. O bar é retangular. No fundo há o grande balcão, onde um barman prepara tiras de limão. No centro do bar há apenas uma mesa, e no canto uma sinuca grande e vazia.

Sentados na única mesa do bar, dois homens, um de cada lado, não se parecem um com o outro. Um é louro de olhos castanhos, estatura mediana, forte, atarracado, vestindo jeans e camiseta branca. Do outro lado o homem parece uma salsicha de tão alto, magro, cabelos escuros e ondulados caindo por sobre o pescoço, mas não muito. Um deles fuma um cigarro preto e o outro um de palha. Não se falam, mas se conhecem, embora pareça que não.

O homem do bar sai de trás do balcão e traz dois copos e duas garrafas de vodca. Uma vagabunda e uma excelente.A excelente vai pro sujeito louro atarracado, a outra vai pro homem que parece uma linguiça de cabelos. Este usa calças brancas de linho bem cortado, e camiseta verde com desenhos de flores vermelhas. É difícil se concentrar nessa mistura de cores.

Os dois viram dois copos de vodca ao mesmo tempo, sincronizados, porém, nunca se olham. O louro, baixinho e atarracado grita algo sem sentido. Parecido com um latido. O homem do bar sai de novo de trás do grande bar e deposita no meio da mesa um prato amarelo com uma grande azeitona no meio. Os dois tomam mais duas doses cheias das respectivas vodcas.

Neste meio tempo já existem três outros homens jogando sinuca no canto do salão. Outros atiram dardos num desenho tosco e numerado, circular, próprio para dardos e que fica na parede perto da sinuca. O clima fica tenso quando a azeitona é colocada em cima da mesa. E um cachorro enorme e abre sua enorme boca e lança um grande bocejo avisando dentes. O cachorro está de olho em tudo, mas não para de se coçar, e volta e meia rosna para o homem do bar, que prontamente leva um pote de ração e deposita com receio na sua frente.

Neste momento abre-se a porta do bar, trazendo com ela flocos grossos de neve e um vento gelado. uma loura maravilhosa, num vestido vermelho que deixa à mostra suas pernas bem feitas, seios iguais a canhões de guerra, corpo impecável de atleta do sexo, cabelos louros num liso com permanente, e tudo feito pra matar. Seu perfume entra com a neve, mas a neve cai, enquanto o perfume se espalha pelo ar que tem cheiro de graxa e gasolina barata.

Todos param e fixam seus olhares prontamente para a incrível loura da "playboy". Menos os dois homens sentados no centro da mesa. Estes continuam impávidos, e centrados em olhar a azeitona negra. Neste momento a loura estanca, não sem deixar de mexer sensualmente o quadril e aponta para a azeitona, e diz. Mas sua voz soa grossa como de homem e isso transtorna os que estão jogando dardos e sinuca, que prontamente voltam a jogar. Ela aponta para a azeitona, com seus dedos de unhas grandes, falsas e vermelhas, e abre a boca como um trovão: "Isto não é uma azeitona! Isto é uma bala de revolver!"

Naquele momento o cachorro se levanta e ruge como um urso. Pelo recinto pequenos camundongos traçam caminhos se escondendo pelos cantos, como que loucos e interessados em saber sobre a situação. O homem do bar joga-lhes pequenos farelos de pão visando que os camundongos se mantenham mais pelos cantos.

Os dois homens sentados na mesa do centro, já acabaram as vodcas e já iniciaram outra. No momento em que ouvem a loura, olham para a azeitona e constatam que na verdade ela realmente não é azeitona, e que também não é bala de revolver, ela é um abacaxi. Olham para a loura e num impulso imprevisível gargalham de forma a dar a entender sua sabedoria tão mais aguçada e antiga.

O urso lambe a  perna da loura  com carinho. Ela deixa, mas se sente incomodada pois sua enorme língua parece lixa, e ela tem medo de que rasgue sua meia fina. A loura dá um chega pra lá no "urso", puxa uma cadeira e senta-se no meio dos dois homens, ambos ainda sorrindo na mesa. Ela pede um uísque ao homem do bar. Este pergunta aos três homens que jogam sinuca, se é possível que algum deles pague o uísque. Os homens fazem cara de "alguém pagará", e dizem que sim.

O abacaxi , no centro da mesa cresce, e já é uma planta colossal, que quase atinge o teto do bar. O bar possui pé direito bem alto, mas sua estrutura é de frágil madeira antiga. O pessoal dos dardos continuam a lançar e acertar alvos. O cachorro já se encontra perto deles. Os camundongos parecem enormes, apesar de seu pouco tamanho. A perspectiva do lugar fica esquisita mediante ao cheiro de graxa e gasolina, e os jogadores de sinuca, embora já não possuam mais moedas para jogar, continuam a devastar freneticamente, com seus tacos, bem ornados e desenhados, o verde da mesa.

A linda mulher com voz de homem, teve seu vestido enroscado num espinho de uma das folhas do abacaxi e continua subindo com ele. Já se encontra há uns dois metros do chão, porém age como se nada acontecesse. Um dos homens se aproveita para olhar por baixo de sua saia e planejar a investida de um dedo bem certeiro.

O homem do bar, apesar do frio, mostra sua testa suada de tanto trabalho, enquanto  lê gibi e jornal ao mesmo tempo. Todo o salão parece pequeno ante o tremendo abacaxi que cresce, porém os camundongos dão a impressão de serem gatos de tão grandes.

O cachorro-urso-monstrengo já começa a dar sinais de chateação e come um dos gatos-camundongos, o que causa uma comoção nos atiradores de dardos. Os da sinuca tentam recuperar as bolas presas dentro da mesa, destruíndo a mesa com serrotes e machados.

A loura já atingindo o teto canta um tema de Irving Berlin, enquanto os dois homens da mesa do centro agora se estranham. Um levanta e tira um revolver do bolso. O outro tira uma granada de mão. Todos gritam sem deixar de executar suas funções. Um segundo gato-rato é devorado pelo cachorrão.

Neste momento abre-se de novo a porta do bar. Mas apenas uma carga de neve entra, em grandes flocos, que faz todos se arrepiarem de frio, trazendo a noite sem luar.


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