sábado, 29 de outubro de 2011

Conchas

Vi dentro de teus olhos, que guardavam o Sol, toda a tristeza das chuvas. Vi dentro de tuas lágrimas, que nada havia, porém escorregavam juntas. Vi dentro de tuas mãos, que afundava o mar sem saber como nadar. Mas dentro deste relógio redondo vejo que não vê o que restou das horas.

Vi seu corpo como colinas febris, onde apenas uma estrela brilhava. E nada mais... E vi o nascer da manhã por entre seus pensamentos incertos. Puxei a raiz do Sol, mas escorreguei no limo ácido das pedras amargas. Senti algas agarrarem meus pés, e senti que o tempo foi sólido, como um bloco de brinquedo, como um jogo de montar de criança, como um quebra-cabeças. E te vi na verdade criança, precisando de leite, e segurando em vento.

Não somos barcaças. Não somos galés. Não somos feitos da madeira que tece o planeta. Não possuímos o entendimento dos passarinhos, que fogem minutos antes do tornado. Nossos próprios furacões são imprevisíveis, e nos arrebatam pelos pés. Voamos não como pássaros, apenas somos atirados, e torcemos para não cair em águas insalubres.

Não acreditamos que no fim do mar se encontram os monstros sagrados, mas sabemos que no fim do mar os encontraremos, de alguma forma, a nos devorar por dentro. Por isso estendemos nossos oceanos interiores ao máximo que podemos, e rezamos para que um desses monstros seja o bom Deus, e nos dê o cafuné que cabelos tão suaves merecem..

Estendi o mar como uma canga, sobre as areias da vida. E fui me arrastando, e nesse "arrastamento" foi me cobrindo, o mar, e fui virando plâncton, e maresia, e concha. Hoje sou a concha que alguma criança encontra na areia, vazia, supérflua, e misteriosa.

Qual será o mistério das conchas? Que belíssima, ou horrenda estória ela não guarda mais...? Que separação lancinante terá acontecido? Ou...que liberdade gratificante, cheia de oxigênio a terá arrebatado? Terá sido sorte? Terá sido morte a sorte, ou o revés da ostra? Que onda terá posto fim a união? Qual correnteza terá levado sua única parte para o pólo sul? Será que existe a esperança do reencontro de uma concha?

Tempos vão se passar, noites virão, e dias flutuarão em correntezas pelo mar. Tudo. Tudo há de areia virar. Nada escapa ao destino da erosão. Nada escapa ao movimento das coisas. O atrito sempre vence a ilusão. E quando uma criança quer brincar... Há muitos aquários,  insolúveis de histórias para contar...


3 comentários:

Anônimo disse...

Sempre bonito e sempre fazendo quebrar a alma.

Alan Sommer disse...

Quebrar nunca. Desentupir.

Anônimo disse...

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