terça-feira, 6 de setembro de 2011

Vida Após a Morte

Existe um lugar, mais comumente - um bar -, muito popular na zona sul do Rio de Janeiro que atende pelo nome de Empório. (Atende sim, se vocês ligarem pra lá vão ouvir alguém dizendo: - Empório!). Bom, é um bar feito numa típica casa da Ipanema antiga da época dos meus pais. Que fica na esquina do quarteirão da escola onde estudei, e que tanto odiei, e ainda odeio, e que um dia hei de explodir o local (claro que vou esperar as criancinhas saírem de dentro, né? Não sou muçulmano radical.). O Local que vou explodir é a escola e não o bar, só pra vocês terem ciência do que estou falando. Bom, o tal do Empório, na minha meninice, era um bar bobo, sem público, mais limpo do que hoje, e que possuía um "flipper" do tipo Arcade, que a gente descobriu, e ia jogar na saída da aula. Bem legal até. Nos fundos do bar tinha um papagaio, que não lembro se era de madeira ou de verdade mesmo, pois já faz um tempão isso, e eu tô ficando velho. Mas era um papagaio enigmático, como o próprio bar era. Entrei lá pouquíssimas vezes. Era um lugar de adultos.

O tempo passou e eu cresci seis anos a mais e já tomava minhas cervejas, e já virava minhas noites com alguns amigos, e já curtia o rock and roll local de uma forma passiva, porém inserida no contexto, e já começava a escrever minhas primeiras musiquinhas sem graça, as quais só não tinha vergonha de tocar para o meu espelho do banheiro de casa.  Empório vivia a sua melhor fase. Não era lotado, mas não era vazio. Havia se tornado "point" cultural do Rio de Janeiro. Destilava seus traficantes, suas musas, seus profetas, seus bêbados, sem a chatice dos adolescentes mais idiotas de hoje em dia (eramos um pouco menos). Gostávamos de Iron Maiden, The Clash, Ozzy, Beatles, e Blues. E o bar encarnou uma aura de templo do rock, de possuir o direito, bem como o dever, de ser o bastião, o Pirineu, o obelísco do Rock Nacional que corria solto na sua única época em que prestou mesmo, e única em que realmente existiu como movimento. O Empório era o lugar do rock, e sendo que na época o nem o rap, nem o Justin Bieber haviam nascido, nem a pirataria, nem  o I-Fode, e mal se tinha secretária eletrônica em casa, o Empório era a CASA do rock na cidade. Não enchia a rua, não atrapalhava o tráfego, mas agitava a vida.

Depois a casa se tornou "point" da molecada cada vez mais idiota (ou eu cada vez mais velho, talvez...). Mas não... porque até então eu só tinha 18 anos, e ainda deveria pertencer a idiotice geral, mas nessa época eu já tinha músicas, e já estava me mandando pra fora do Brasil, o que é outra estória que não vem ao caso neste texto. O Empório se tornou um bar mais esculhambado, não menos Rock and Roll, porém buraco das patricinhas chatas e gostosas  e dos mauricinhos e "pleybas" de plantão da época.

Já era o início dos anos 90 e o fim do rock nacional, dos anos 80, do meu período escolar, e acho até que do próprio papagaio, provavelmente. Mas um bar que mudou tanto e tão pouco, com relação à sua fachada arquitetônica, tinha uma característica peculiar, assim como poucos e sempre famosos, bares da cidade: o seu garçom especial. Figuras míticas presentes em vários bares do Rio de Janeiro, muitas vezes assumíam mais importância que o próprio espaço, e se reservavam até o direito a uma certa arrogância súbita. O Empório tinha o seu, e se chamava, e ainda se chama (pra quem acredita que um nome nunca morre, nem uma pessoa) Vicente.

O Vicente era o GARÇOM do Empório. Era a mística do lugar, a cara do lugar, o som do lugar, a imagem do lugar, com aquela sua barba de profeta-stones-metal, o Vicente era o "chefe" do lugar. Virou símbolo do lugar, e agora virou "amuleto" do lugar. Pois Vicente faleceu há pouquíssimo tempo, deixando órfãos os que o amavam, e os que o detestavam.

Agora, pergunto eu: qual a razão deste texto-embromação só para falar da morte de um garçom importante de um barzinho "cult" da cidade? Tudo isto era apenas para falar sobre a vida após a morte. Pois que o tal do Vicente foi um garçom importante e carismático, não resta dúvida. Mas apenas um garçom... nunca foi sócio, e aposto que nunca recebeu mais do que um salário de garçom, pelo que imagino... apesar da fama que tinha, e do sucesso do bar.

Pois que súbitamente, mas não sem aviso, o cara morre e de repente vai virar SÍMBOLO real da casa. Pois o Empório vai passar a se chamar "Empório Vincent"! E vai ostentar logotipo com o semblante do sujeito. Que honra....me dá vontade de chorar até. Até porque (e me perdoem os donos se eu estiver equivocado) o tal do Vincent não recebeu nem um tostão por isso, e provavelmente não receberá visto que está "dead". Ninguém nem deve ter perguntado a ele das intenções e transformá-lo no símbolo econômico, de um estabelecimento capitalista. Até porque duvido que alguém tenha tido a coragem de chegar para um bom sujeito, trabalhador, morrendo de câncer no fígado, dizendo as palavras: "Vicente, já que você vai morrer mesmo, que tal a gente usar seu nome (disfarçado jurídicamente de Vincent, claro!) e seu rostinho pra promover o bar que continará vivo?" Sacanagem, né? Quem tem culhão pra propor isso sem oferecer nada, pelo menos à família do doente? (Peço perdão de novo, caso isso tenha acontecido de maneira outra e justa.) Mas duvido, e me parece muito injusto que se aproveitem de quem nada pode mais reclamar. Tenho certeza de que o "Vincent" se sentiria honrado (ou talvez não?) com tamanha "vida" após a morte, porém muito chateado de não ter sido homenageado em vida mesmo. Principalmente com algum dinheirinho a mais, um numerariozinho a mais no contra-cheque, que com certeza não ia fazer falta para um garçom. Alguém perguntou a ele?

Pra não me ater apenas a este caso há outros famosos. Como por exemplo quando eu, embasbacado, assisti num show no Canecão, uma Zélia Duncan interpretar de sopetão, e anunciando, sua grande e feliz parceira, numa música composta entre ela e o centenário compositor pioneiro da música carioca - Guerra-Peixe. Música de Guerra-Peixe e letra da grande Zélia Duncan! (Ou não seria o contrário?) Porra! (Desculpem, mas só dá pra expressar isso com palavrão mesmo.) Alguém! Repito... Alguém perguntou ao Guerrinha se ele autorizava a Zélia a enfiar uma letra (boa ou não, que importância tem...?) na música dele? Alguém perguntou ao Guerra se ele gostava da Zélia? Seria impossível; não foram nem contemporâneos... Talvez a família tenha autorizado. Mas eu juro, que se no dia em que eu morrer, uma filha, ou neta ou raio-que-o-parta da minha futura família autorizar o uso da minha música Pintura (que eu adoro!) num comercial de Havaianas, eu vou puxar o pé de todo mundo durante a eternidade. Acho isso um desrespeito com o morto.

Isso aconteceu até com o John Lennon, que depois de assassinado teve uma música usada pra vender tênis Nike. A Nike é uma empresa que tem como política utilizar mão-de-obra semi escrava de países fodidos do oriente, e revendê-los a peso de ouro nos países onde existem povos mais endinheirados. (Um tênis de plástico e nylon a 500 reais!!!,  pra mim isso é peso de ouro sim.) Vocês, leitores amigos, que têm algum conhecimento das idéias do falecido John Lennon, acham mesmo que ele autorizaria tamanha audácia em vida? Bom... a Yoko autorizou, ou o editor da música, a gravadora, sei lá quem....

O pior dos casos: Igreja Católica Apostólica Romana. O Vincent deles, Jesus, morreu sem nem imaginar tamanha propaganda que faríam de seu nome durante mais de 2000 anos, sem falar na imensidão de dinheiro e terras e poder que isso gerou, dos quais ele não usufruiu nem uma vírgula. Com todo respeito a quem acredita em Jesus como Salvador, Messias, Profeta, etc. Não importa, né? Se você acha que ele é Deus então tudo bem, ele tá sabendo o que está acontecendo. Não parece muito feliz.... mas está sabendo. Agora... se você pertence a outra religião e acha que ele não teve nem idéia da amplitude que seu nome gerou e que o próprio nome recebeu, é uma tremenda de uma sacanagem com um morto. Quantos não enriqueceram se utilizando de uma pessoa que não está nem mais entre nós. Quantos não assumiram poderes inconcebíveis em nome de um personagem que se foi!

E você? Já pensou em você? Quando você morrer, (e isso é certo que vai acontecer, infelizmente...) o que vão fazer com VOCÊ? Você pode morrer e de repente virar o maior símbolo gay do universo sem nunca ter sido. Ou pode se transformar na maior marca de cerveja de todos os tempos sem nem ter experimentado um porrezinho da maldita latinha. Ou pode ser considerado o maior artista de sua época, e na verdade foi um merda  (nesse caso a coisa é bem legal). Mas considerando que em quaisquer das situações você não usufruirá de nada, não saberá de nada, não assistirá a nada, e que outros lucrarão sobre seu nome, dane-se tudo e todos , né?

Mas vamos considerar que existam realmente espíritos, e que possamos depois de mortos assistir a essa imensa orgia que fazem da gente. Impassíveis de tomar alguma providência maior que puxar pezinhos por aí, tudo isso é podre. Volto então ao caso do meu amigo Vincent, ops! Vicente. O sujeito vivo é perigoso. Pois ao ser homenageado desta forma tão bela, de virar cartão-postal e letreiro, pode receber melhor oferta e se mandar. E aí a casa, ou religião, ou empreendimento qualquer cai, né?. Melhor esperar o vivo morrer mesmo. Daí a vida após a morte.

7 comentários:

claudia cristina tonelli disse...

Muito bem posto, um grande convite à reflexão..

David Bohm disse...

Acho que há um certo exagero pessimista comum a quem está acostumado a criticar o "capitalismo" e a vida em sociedade. Por isso, nem 8 e nem 80. Assim, eu prefiro ter uma opinião mais neutra e, ao meu ver, mais sóbria.

O post parece uma espécie de crítica àqueles que potencialmente se aproveitam dos mortos para lucrarem através de suas imagens. E uma "reivindicação" dos direitos dos mortos que, em vida, não tiveram nada disso e certamente não irão (já que estão mortos) poder aproveitar dos benefícios do uso de sua imagem e nem poder autorizar ou não o seu uso.

Mas também há fatores que estão sendo ignorados no texto, vou tentar listá-los resumidamente:

1 - Vicente:

Sempre foi uma pessoa extremamente querida e fez sua "fama" vivo, ao contrário do dono do bar que eu nem sei quem é e nunca vi na vida e que, diga-se de passagem, não pisa no empório! Todos curtiam a figura do cara lá e, sem dúvidas, embora não fosse o dono (que, para mim, ironicamente é o fantasma, não o Vicente) ele era o lugar e, nesse caso não dá para dissociar o lugar do garçom.

A mudança do nome do bar não foi algo planejado pelo dono do bar para lucrar com a imagem dele (na verdade, creio que ele nem tinha noção de que iria tomar tal proporção a morte do cara), mas veio de um movimento espontâneo do PÚBLICO do bar, daqueles que realmente curtiam o cara e que estavam lá no enterro dele. E isso é um MÉRITO! Menos de um dia depois da morte o cara, uma página foi criada no facebook e mais de 2000 pessoas aderiram a ela (e não foi criada pelo dono do Empório!).

Logo começou uma forte campanha para que se mudasse o nome do bar e eternizassem o cara e isso foi unânime! Obviamente, o dono não é burro e isso dá uma peculiaridade e uma historicidade ao estabelecimento que se o cara não aproveitasse ele seria uma besta! Mas a pressão foi do público do bar que não tem absolutamente nenhuma pretensão de ganhar dinheiro em cima do cara, então, há de se valorizar!

Quanto a possível reivindicação do defunto, acredito que só se ele fosse muito materialista e estivesse muito de mal com a vida (no caso, com a morte dele) para se sentir lesionado com tal atitude. Lógico, isso gera bônus para o bar? Óbvio que sim! Mas não foi esse o germe que desencadeou o movimento de maneira alguma!

2 - Zélia Duncan:

Acho, realmente, sem sentido achar que a Zélia Duncan quis se aproveitar de Guerra-Peixe para se dar bem. Por outro lado, acredito que o que aconteceu foi o oposto! O defunto se deu bem! Mesmo que seja o caso do cara ser um daqueles que criticam tudo, puristas, narcisistas que acham que todo o resto é porcaria e que, vivo, não aceitariam que sua música fosse misturada com a ralé (o que eu não acho que seja o caso, mas tô chutando), quem se deu bem foi ele. Eu devo confessar que eu nunca ouvi falar de Guerra-Peixe, mas conheço bem a Zélia Duncan. Ela é uma artista famosa, que faz sucesso e que não precisa se escorar em ninguém para se dar bem, ganhar dinheiro ou fama, principalmente se o "homenageado" tiver menos fama do que ela. De fato, é lógico que ela curte o cara, quis evidenciá-lo e colocar uma letra na música dele. Novamente, acharia estranho se o defunto puxasse o pé dela ou se remexesse no túmulo por conta disso!

David Bohm disse...

3 - "Vincent-Jesus":

Exite ser humano na face da terra que tenha gerado mais polêmica do que esse ser? Ou que tenha sido mais idolatrado? Eu não conheço! E nem você! Mas ele veio para isso mesmo, como ele mesmo deixa muito claro! Tanto que, mais de 2000 anos depois, o legado do cara ainda possui força absurda. Por mais que o tenham distorcido, usado sua imagem, e etc e tal, ele ainda está vivinho da Silva! Muito mais do que qualquer um que tenha pisado neste planeta. Isso graças ao sentimento que o mesmo gera na massa que, sendo massa e sendo imperfeita irá distorcer, interpretar do seu jeito, mutilá-lo, usá-lo em benefício próprio, etc e tal! Mas isso são efeitos colaterais mais do que previsíveis! Não tem como a obra de um autor (não precisa ser um documento escrito, talvez apenas a sua ação em vida e sua mensagem) se manter intacta e pura e, se assim o for, será um problema sério! Pois não terá vida e não terá atingido e se misturado às subjetividades ("impuras") que com ela tiveram contato! Aliás, como o próprio diz, ele não veio para se misturar aos puros de alma, mas aos impuros. Então, me parece que as coisas saíram exatamente como ele havia previsto e não creio que o "defunto", novamente nesse exemplo, tenha sido surpreendido e nem se sentido lesionado com o "uso" milenar de sua imagem.

Cláudia Bistrichi disse...

Muito legal seu texto isso é pura verdade e você tem noção quantos fãs a mais você pode ter depois que morrer isso acontece com muitos artistas, a banta Legião Urbana por exemplo vende uma média de disco de 250 mil cópias por ano fora os download, também tem vários artistas que em sua vida nunca foram reconhecidos e depois de sua morte viram um mito é o caso de Vincent Van Gogh que somente foi reconhecido após a sua morte, mas nesse caso ele é lembrado como uma obra de arte e não como fonte de comercio... Agora a maneira que às vezes é vinculada a informação a respeito de um artista ou individuo pode ser até desonesta pois este nem esta mais aqui para se defender, no entanto a finalidade é sempre a mesma, o alvo é sempre atingir uma grande população fazendo-os acreditarem na mesma coisa ...Mas em relação a isso cabe as pessoas se informarem sobre o que estão escutando, vendo, sobre o que acreditam e não sair por ai confiando em qual quer propaganda.

Alan Sommer disse...

A questão toda não é quem é melhor ou pior. Não é questão de gosto, fama ou amor. A questão é: existe o direito de? O morto por estar morto não tem o direito de argumentar, nem decidir, seja por uma homenagem, seja por uma parceria. Será que ele quer? Quem poderia dizer melhor do que o próprio. O texto é sobre isso. E é óbvio que, mesmo sem intenções capitalistas mal-intencionadas, é fato que o morto não ganha nada por ter seu nome veiculado. O texto é sobre a ignorância do morto em relação ao desdobramento de sua própria vida pos-morten, e não uma crítica ao capitalismo ou às pessoas que o homenagearam.

David Bohm disse...

Ah, me desculpe! Mas o morto ganha! E ganha muito! Ele ganha a dádiva de ser imortalizado! Se isso não é ganhar nada, eu me pergunto se seria melhor o dinheiro que ele potencialmente poderia ganhar em vida ou a própria "vida após a morte". Por outro lado, estando morto, sobram as boas lembranças e o que as pessoas podem fazer com elas. Não cabe mais perguntar ao defunto a opinião dele, realmente não importa mais! Morreu, ora bolas! Mas ao público, que irá lembrar dele, cabe o direito de mantê-lo vivo.

Anônimo disse...

Muito interessante...Boa leitura.