sábado, 17 de setembro de 2011

Solidão

Disse o poeta: "Solidão é lava...". Estava enganado. A solidão é uma deusa. É a deusa que atende pelo nome de Tristeza. Uma deusa guerreira em depressão. Seus momentos finais são os de uma guerreira caída no chão, pronta a ser sucumbida pelo inimigo. Seus braços são ornados de uma palha de ferro feita de vento, e do seu coração brota uma flor vermelha que pede piedade e só consegue o desprezo que a vai descolorindo até que atinja o cinza do seu horizonte.

Lava é algo quente, que esfria, mas antes te leva junto, te desintegra, e você vira parte dela. Parece a solidão, mas não é. Porque a solidão não te leva junto. Ela não te faz desaparecer, ela te mantém sábio e só. Não há nada mais triste e menos compreendido do que a sapiência solitária. Lava é o amor, que vem e vai. A Solidão vai além. A Solidão não vem e nem vai. Ela existe dentro de você como um vírus. Cujo único remédio é se entregar a ela ou se dar aos outros também solitários. O que causa um ciclo, uma corrente solitária inquebrantável, porque só sabe se dar quem tem para dar-se. O solitário muitas vezes não tem solução. Ele precisa de um salvador, porém se esquece que é quase impossível salvar uma deusa.


Interlúdio:
(Existe um bar sem nome
Ao qual chamo de Solidão
Na verdade não é bar
É um hotel de um beco na imensidão
De um bairro que já foi lugar
E agora é só um vão
Onde um espírito de ardósia
Deita suas mágoas em vão)



Continuou o poeta: "Solidão é lava que cobre tudo. (...)" Errou. A solidão não cobre nada. Você caminha sobre ela. E onde seus passos vão, onde quer que você pise, lá está ela, como uma sombra vertical. Ela não quer te cobrir, ela quer ser pisada, ela quer rir de você, sabendo que mesmo correndo ela te segue. Solidão é sincronia. E se você voasse? Não adiantaria nada, pois ela é parte de si. E lá está ela em baixo de você. E nunca do seu lado. E se existe um solitário ao seu lado você não vai saber. Pois a solidão é invisível e corrói seu pensamento e te diz pra ser feliz. Porque não pode revelar-se a sí mesmo. É feio. Assusta. Então seguimos nosso caminho, com a cabeça baixa, o olhar acinzentado dos que só enxergam o chão, esperando que uma mão nos reconheça.

Muitas mãos vão reconhecer. Mas de nada adianta uma fraca mão . Há sortudos que conseguem se aninhar entre muitas mãos fracas e assim fazer uma forte. Mas entre duas pessoas uma das mãos precisa ser forte. Precisa ter se livrado da Solidão. Mas então você me perguntaria: será que dois solitários juntos não passam a se tornar menos solitários? E eu respondo: depende da Solidão.


E assim sigo só...

4 comentários:

claudia cristina tonelli disse...

Triste, belo, cortante.

Rodrigo Passos disse...

"Quem está distante sempre nos causa maior impressão"

Alan Sommer disse...

Com certeza!

Alan Sommer disse...

Obrigado pela visita!