quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Simon

"Meu nome é Simon. Pronto, já me apresentei. Agora escreverei abaixo nesta carta, algumas linhas fundadas no maior dos desesperos. Lançarei esta carta aos oceanos, devidamente engarrafada e lacrada com uma rolha, e espero que alguma alma, bondosa, caridosa, ou não, a receba. Provavelmente de algum vento que saia de mim, ou de alguma louca correnteza, ou maré pungente e atracante. Portanto peço SOCORRO! Que Deus ilumine minha sorte através do caminho que esta carta fará. Deus me abençoe!

Sabem o que significa furacões? Furacões são tempestades cíclicas. São cíclicas tanto introspectivamente como externamente. Elas giram sobre si só, e giram também pelo mundo. Geralmente são tropicais e seguem um percurso norte/sul pelo Atlântico. Algum furacão provavelmente vai influenciar o itinerário desta pobre carta, sem saber que existe um outro furacão que se move. Este outro se move dentro de meu peito. Já arrancou todos os meus sentimentos. Deixou apenas a esperança, que diz o velho marinheiro: é a última que morre.

Não sei se algo morre na vida, especialmente a esperança. Mas sinto que tudo, quando ela não morre, vira um objeto. Pode ser um carro para alguns, como pode ser um cavalo, ou um bichinho de estimação para outros. E quem me dera ter pelo menos um bichinho de estimação para me fazer companhia neste calvário que é a longitude de um ponto pacífico se bem que no Atlântico Sul.

Voltando à esperança, ela pode representar muita coisa. Ou pelo menos pode se transmutar ao invés de perecer de vez. Uma coisa é também certa, a esperança depende de algo a mais. Ela sempre viaja acompanhada. Tirando um exemplo do meu mundinho: um navio tem o mar como esperança. Assim como um isqueiro tem o gás como esperança. Pois de que vale um isqueiro vazio? Da mesma forma um cinzeiro não faz sentido sem uma guimba de cigarro, mesmo que seja de um pirata ou de um capitão da coroa. Isso não importa realmente. Um cinzeiro solitário precisa e quer uma guimba qualquer. Não há fogo sem oxigênio - eis outro bom exemplo, Ah!

A minha esperança reside em várias coisas que precisam se manter e se cuidar para que no fim haja o resultado final, que é: eu ser salvo de qualquer maneira! Bom... o papel tem que chegar sequinho à destinação, senão como alguém poderá lê-lo em borrões? A garrafa tem que ser forte o suficiente para não se despedaçar num recife qualquer! E a rolha tem que aguentar a pressão do tempo e se manter intacta até o fim! Depois disso tudo há que se esperar que o vento guie esses indivíduos pelos caminhos corretos do acaso, e que por fim a garrafa encontre algum ponto no mapa, e que neste ponto exista algum humano, e que este perceba, com seus olhos, a garrafinha. Porque se depois de todo este trabalho de viagem, os indivíduos passarem despercebidos pelo olhar de quem interessa, no fim, tudo!.... tudo poderá estar perdido. Mas se no fim, tudo der certo e a garrafinha, com a rolhinha, com o papelzinho, que é esta carta, chegarem às mãos de algum delinquente frio que os jogue de novo ao mar, ou limpe os beiços com a carta depois de um jantar pelas ruas de alguma cidade fria e desonesta, e queime tudo pra fazer um cigarro, que vai precisar de um isqueiro, que vai precisar de gás, que vai precisar de um cinzeiro...  tudo estará perdido para mim. Pobre Simon...sempre a esperar, sempre a esperar...e agora mais ainda...a esperar...esperar...POR VOCÊ! SOCORRO!

Peço, para finalizar esta carta e tornar a leitura bem simples para quem interessar me resgatar daqui. EU NÃOAGUÊNTO MAIS! Por favor, se você abriu esta cartinha que conseguiu fazer a travessia fundamental, incólume de furacões, livre de redemoinhos e correntezas fugidias, por favor! Me salve! Pois eu não aguento mais esta solidão.

E para você, querido bem-feitor de minha vida, dou-lhe a minha exata localização. Fico na latitude 15 com longitude 30. Não terá como errar pois estou no meio do oceano de algum lugar e não aguento mais!  Estarei pronto e berrando e ateando fogo na única árvore que existe aqui, para que você me reconheça e me salve. Por favor...

Deus sê miraculoso e livrai-me desta solidão que não sustento mais...

A quem receber este manuscrito, muito obrigado do fundo de um coração, por favor, me ocupem logo!


Atenciosamente, eu aguardo...

Simon 'the island'"


* * *

Esta carta foi encontrada pela polícia de Porto Rico, num dia de Sol de fevereiro, mar calmo e carnaval. Os policiais bêbedos não acharam estranho uma carta dentro de uma garrafa fechada com uma rolha. Porém, devido ao álcool consumido, não se importaram, e acharam muito engraçado o seu remetente ser uma ilha.



Um comentário:

Anônimo disse...

Que lindo, que lindo! "Ilhas", mais que "invólucros eficientes", carecem de "olhares atentos"...siga a nos presentear com seu olhar sensível sobre todas as coisas dessa vida...

Beijo, parabéns, Grande Poeta de um grande Sentir!

da Claudita...