sexta-feira, 30 de setembro de 2011

A Rosa do Deserto

Um homem caminhava. Um homem caminhava perdido. Um homem caminhava perdido num deserto. Um homem caminhava perdido num deserto em busca de uma flor. Um homem caminhava perdido num deserto. Um homem caminhava perdido num deserto em busca de uma flor que nunca aparecia.

Dias. Dias e dias se passaram. Dias e dias se passaram sem que ele avistasse algo. Dias e dias se passaram sem que ele avistasse algo além de areia e céu.

Sua visão adormecia. Sua visão adormecia enquanto seu estômago. Sua visão adormecia enquanto seu estômago já há muito dormente. Sua visão adormecia enquanto seu estômago já há muito dormente comia areia fingindo ser farofa.

Noites. Noites frias caíam sobre sua pele. Noites frias caíam sobre sua pele, que durante o dia, parecia não mais respirar .

E assim se passaram meses. E assim se passaram meses, e por um milagre divino. E assim se passaram meses e por um milagre divino seu corpo não mais precisava. E assim se passaram meses e por um milagre divino seu corpo não mais precisava de água nem de comida.

O deserto. O deserto incrível. O deserto incrivelmente o havia transformado. O deserto incrivelmente o havia transformado em um ser eterno.

Abriu-se. Abriu-se em seus olhos um sorriso. Abriu-se em seus olhos um sorriso de felicidade. Abriu-se em seus olhos um sorriso de felicidade ao constatar que a necessidade o havia transformado. Abriu-se em seus olhos um sorriso de felicidade ao constatar que a necessidade o havia transformado em pedra e areia.

Sentiu-se. Sentiu-se Rei. Sentiu-se Rei por saber-se imortal. Sentiu-se Rei por saber-se imortal mesmo significando nada mais que inócua pedra.

E no seu não necessitar da mais nada tornou-se. E no seu não necessitar da mais nada tornou-se, ou achou-se mágico. E no seu não necessitar da mais nada tornou-se, ou achou-se mágico e capaz de alterações múltiplas e dono dos domínios desérticos. Achou-se mágico e capaz de alterações múltiplas e dono dos domínios desérticos e poderoso de tudo, DEUS!

Um belo dia. Um belo dia, como todos no deserto. Um belo dia, como todos no deserto avistou. Um belo dia, como todos no deserto avistou uma miragem. Um belo dia, como todos no deserto avistou. Um belo dia, como todos no deserto avistou uma miragem - era a tal flor. A tal flor que procurava. A tal flor que procurava e já havia esquecido. A tal flor que procurava e já havia esquecido, não o havia esquecido.

Mas como DEUS que era. Como DEUS que era, não ligou para a tal flor. Não ligou para a tal flor e a desconsiderou. A desconsiderou acreditando sê-la uma miragem apenas.

Depois de tantos meses, anos... Depois de tantos meses, anos... de que valia. Depois de tantos meses, anos... de que valia, ainda mais agora que era DEUS. DEUS de pedra e areia, invulnerável à natureza, senhor do Deserto. Depois de tantos meses, anos...quantas rosas não poderia ter simplesmente ao desejar!

Sentou-se em chão esplêndido e chorou.

Um dia levantou-se e foi ver a tal rosa. Um dia levantou-se e foi ver a tal rosa que não estava mais lá. Um dia levantou-se e foi ver a tal rosa que não estava mais lá, mas olhando bem, encontrou um restinho de caule e uma corzinha mirrada devastada na areia.

Que tristeza. Que tristeza, a rosa não havia sido miragem. Que tristeza, a rosa não havia sido miragem e havia morrido, perecido, praticamente ao seu alcance, e de nada ele fez. De nada ele fez, era "DEUS" e não fez!

Pôs-se a rir! Pôs-se a rir como um palhaço de circo.Pôs-se a rir como um palhaço de circo chafurdado na lama da areia molhada. Lama da areia molhada pois havia chovido, uma vez,  após anos.

Riu tanto que não se dava mais conta de que era riso. Riu tanto que não se dava mais conta de que era riso humilde. Tanto que não se dava mais conta de que era riso humilde e que não era mais DEUS.

Após dois dias o Sol voltou. Após dois dias o Sol voltou a brilhar intensamente seus raios de fogo e glória. Seus raios de fogo e glória alimentaram o chão molhado. O chão molhado fez surgir um botão. Botão de rosa.

A rosa começara a crescer. Crescer e encorpar. Crescer e encorpar diante de "DEUS". "DEUS", ao contrário, ia se afundando, se mirrando, e virando flor moribunda.

                                                                            


* * * * * * * 

Quando apareci no lugar, acompanhado da legião estrangeira. Quando apareci no lugar, acompanhado da Legião Estrangeira.senti o que meus companheiros sentiram ao chegar. Senti o que meus companheiros sentiram ao chegar, e que é indizível e inenarrável, pois sentimentos não se explicam, e uma vez explicados perdem o sentido. O sentido.

Ao tocar a flor. Ao tocar a flor com minhas próprias mãos. E ao olhar para os lados e ver "DEUS" morto. "DEUS" morto como areia e pedra, voltei-me para minhas mãos.

A rosa não existia. A rosa não existia, era miragem. A rosa não existia, era miragem que fora verdadeira. A rosa não existia, era miragem que fora verdadeira um dia. Um dia antes de "DEUS" se achar DEUS.

E desvaneceu-se em meus olhos. Em meus olhos com tanta força, que ao olhar para os lados. Em meus olhos com tanta força, que ao olhar para os lados, noticiei a ausência de meus companheiros da Legião.

Estava eu só. Estava eu só, agora. Agora eu era areia e pedra. Pedra.

E foi depois disso. Foi depois disso que adquiri. Foi depois disso que adquiri a desordem que denomino. Denomino, por meu próprio e exclusivo conhecimento. Conhecimento de Repetição da Alma.

E assim vivo. E assim vivo repetindo a história de alguém. Alguém DEUS. Alguém DEUS que não acreditou na veracidade da miragem.

E portanto passarei a eternidade. Passarei a eternidade repetindo as palavras que me afligem. Quem achar, e ler este texto. Quem achar e ler este texto o entenderá como bem o quiser.

Até que algum dia chova.

Até que algum dia chova, e surja uma rosa para me salvar.



Um comentário:

cervejaerua disse...

... e este é ...
... e esté é melhor ...
... e este é melhor ainda ...
... e este é melhor ainda, mais belo ...
... e este é melhor ainda, mais belo e mais certeiro ...
... e este é melhor ainda, mais belo e mais certeiro ... preciso