sexta-feira, 9 de setembro de 2011

A minha árvore ferida

No meu jardim, de frente pra minha casa, havia uma mangueira. Não lembro se fui eu que a plantei, mas a vi nascer e crescer. Deve ter pelo menos uns 20 anos. Já é uma árvore de verdade, vai crescer muito mais, pois mangueiras crescem mesmo.

Ela sempre foi uma planta linda, desde cedo, e nós sempre esperávamos por frutos maravilhosos, sem o agrotóxico do mundo, com a pureza de um jardim.

Bem na época em que ela começou a se tornar fértil a casa foi alugada para uma família de franceses, que vieram do exterior trabalhar no Brasil.

Esses franceses, típicos franceses, típicos europeus, maltrataram a árvore. Cortaram vários galhos importantes, já crescidos dela. (É preciso ser tropical para entender o sabor de uma manga madura.)

Ficaram na casa por uns três anos e voltaram à terra dos perfumes e dos esgotos. Ambos famosos.

Minha árvore nunca mais foi a mesma. Alijada de alguns braços importantes, cresceu com uma aura triste, um contorno quase que art-deco, uma forma introspectiva de árvore.

Por muitas vezes achamos que ela ia morrer. Ficou doente, tivemos que passar remédio em toda extensão de seu troco, e de seus braços mutilados. Pra aumentar o problema, uma outra árvore vizinha, de uma espécie predadora de árvores (pra quem não sabe, isso existe também entre as plantas), acho que se aproveitando da fraqueza da mangueirinha, quase a matou por baixo da terra. Nós arrancamos a árvore predadora, e não pensem que foi fácil não! Uma árvore assim não morre fácil.

Mesmo assim a nossa árvore continuou triste. E toda vez que passava por ela e via as pontas que sobraram dos galhos feridos me dava uma dor na alma. Cada vez que imaginava a dor da árvore sentia uma conexão maior entre planta e ser humano. A árvore passou anos dando poucos frutos. Depois passou a dar mais frutos. Por muito tempo suas mangas eram intragáveis, ruins para comer. Tinham uma cor mais ocre e um gosto de tristeza. Não era azedo nem amargo, era um gosto sem vida, sem graça, sem nada.

Passaram uns dois anos e a árvore já estava maior. Seus frutos já podiam ser comidos. Sua doçura já existia, provando que não há nada que o tempo não apague, cure, ou conserte. Mesmo assim, na pontinha final da fruta, bem perto do local onde ela se prendia ao galho, ainda se sentia um gosto ocre de azedume. Como um resquício da mágoa que serve pra nos lembrar que aquela árvore um dia foi aviltada de sua condição de planta frutífera. Machucada em seu caule, que também é pele.

O Homem é assim. Pisa em tudo que não consegue ver, quebra tudo que não possui a sua constituição física. E mata seu semelhante por prazer ou egoísmo. Não somos diferentes do resto. Não somos especiais. Se somos não fazemos jus à condição. Cortamos os braços dos nosso semelhantes, das nossas crianças. Quando não fisicamente, psicologicamente. Nosso mundo é supérfluo, nossa história criminosa. Somos tão irracionais quanto uma árvore, com uma diferença: elas purificam o ar, alimentam a terra, e estão aí há milhões de anos antes de nós. Enquanto que o Homem, se durar mais uns 200 anos, será uma vitória.

Aliás, a árvore cresceu cada vez mais, e melhor. Vai durar uns 200 anos.




6 comentários:

Cláudia Bistrichi disse...

Tem uma filosofia que diz assim; eu não estou bem certa, mas acho que é isso:
Mesmo que o mundo desde seu inicio fosse liderado apenas por mulheres ainda assim existiriam guerras, escravidão, sofrimento...
Mesmo que hoje o mundo fosse liderado pelo comunismo ainda assim existiria, egoísmo, preconceito, injustiças...
Mesmo que no futuro o mundo seja liderado pelo reino de Deus ainda assim existirão maldades, crimes, mentiras...
A busca por um mundo utópico é uma ilusão por que somos todos descendentes de uma única raça, a humana.
Então independente de do gênero, política, religião, jamais viveremos um mundo absoluto de paz, um mundo utópico, por que enquanto existir homens irá existir personalidades diferentes lutando entre si pela razão, e síria basicamente impossível estipular um tipo de perfil humano isto por que nos seres pensantes somos imensamente complexos.

Poeta Mano Melo disse...

Que história linda, Allan, Emocionante mesmo.

Alan Sommer disse...

Emocionante é a sua presença e o seu comentário! Surpresa boa.

Mariana Junqueira disse...

Linda estória, Alan. Gostei muito. Volta e meia reflito sobre estas atrocidades que o Homem civilizado comete. A natureza já começa dando seus sinais de intolerância, de dor. Falo em natureza de forma ampla e plural: Plantas, árvores, jardins, animais, mares, lagos, chuvas, enchentes... e os animais? o boizinho que é morto de forma absurdamente cruel? o carneiro, o peixe e tantos outros que são privados de seu habitat, feridos e mortos. Alguns leitores podem exclamar: ai que horror! credo! no entanto, na hora de entrar numa churrascaria, ou cometer um ato cruel com os animais, os maiores elogios são proferidos: Quanta carne suculenta! que Filé mingnon! acho saudável repensarmos como tratamos a natureza e o nosso consumo da mesma. ;)

Danny Reis disse...

Muito legal a história e a metáfora, Alan!
Abração!

Marta Melo disse...

Que texto lindo!Quantas coisas na vida nos podam,nos machucam...Ao mesmo tempo é impressionante a força do tempo que nos regenera e nos ensina a continuar dando frutos doces apesar de tudo.Amei seu blog,primeira vez que visito.