quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Sugarman


Estava eu agora abrindo uma velha bolsa bem grande de nylon, antiga com metade dos meus sonhos ainda rejuvenecidos, quando de repente começa a chover milagrosamente como nunca fazia em LA - Los Angeles. Nesta sacola reminiscências brutas em forma de fitas cassetes de uma época entre romântica e técnica que foram os anos 90.

Eu lembro que morava em Los Angeles, e acho que só. Hoje me parece tudo muito idealizado pela mente conturbada dos primeiros anos que voltei de lá, bem pior do que quando fui. Meu corpo doía todo, e parece, minha cabeça simplesmente apagou da memória fatos da minha história daqueles 5 anos que me parecem 10.

Recentemente comprei um gravador de fitas cassetes (pois o que eu usava lá, para compôr,  havia por fim quebrado). E depois de anos no Brasil (voltei já deve ter uns 12 anos...) resolvi abrir a sacola e desencavar pelo menos 50 fitas repletas de material esquecido e alguns que ainda lembro. Me deparei com uma fita que contém uma das minhas grandes músicas da época, porém onde canto não apenas com o violão, como era de costume, mas com uma banda inteira. (!!!) Eu juro que não me lembrava disso. E juro que puxo pelo cérebro, mas não consigo ter a menor ideia de quando a gravei, nem aonde, nem com quem. E nesse momento vejo como eu realmente não estava bem e não poderia nunca, apesar das críticas ambíguas providas do desconhecimento de pessoas que me amam, continuar minha jornada por aquele deserto da Califórnia. Tudo que sinto neste momento é um vazio no peito, que deve ser onde habita nosso cérebro, pois que a cabeça parece não valer nada. Como eu gostaria de me lembrar!!!!!! Mas a amnésia psicológica de um ser que não vivenciou grandes terremotos de placas teutônicas, apenas os seus próprios, parece que o partiu ao meio. Parece que esqueço para me lembrar do que gostaria que tivesse acontecido e não sucedeu. Ainda.

Me sinto só. Nesta noite de chuva de verão invernal a única coisa que me abraça são lembranças de magma. Se existe alguém mais solitário neste mundo, esta pessoa sou eu. Há anos ando por ruas escurecidas pela noite, e trilho labirintos de cidades infinitas como meus pensamentos, como LA.

E neste contexto resolvi contar a história da minha principal música. Sei que não farei outra igual (nunca fazemos), muito embora tenho feito melhores até. Nada para mim soa como SUGAR MAN. Com esta música eu experimentava a completa conjunção astrológica. Onde não existiam signos, nem zodíaco, apenas a solidão contida e captada dentro de cada um. Nos meus shows, na maioria das vezes desertos, embora eu me esforçasse tanto para que não o fossem. E era tão difícil que fosse diferente, já que na época mal se tinha um computador em casa, muito menos redes de relacionamentos, celulares, etc. Tenho a certeza de que hoje seria bem mais fácil. Mas que mesmo assim esta música arrancaria com dor, lágrimas dos olhos dos americanos céticos e pragmáticos que me assistiam, de vez em quando, nos bares e coffee shops de LA.

Lembro do "The Crooked Bar", do "The Highland Grounds", tanto que parecem que minhas lembranças são apenas fantasia. Ou que nada aconteceu, foi tudo um sonho acre-doce. Lembro do David, engenheiro de som e "dono" de um sarau, amigo meu também. Será que existiu? Ele que foi o primeiro a divulgar e adorar SUGAR MAN, mesmo com meu sotaque de "americano" de algum lugar indefinido por eles, já que meu sotaque eu fingia muito bem. Lembro das lágrimas de uma mulher que sempre me assistia e se debulhava em lágrimas com a tal música que tocava no que há de melhor e pior no ser humano. Não sei realmente o que esta música tem. Só sei como a fiz. E vou contar aqui como foi.

Eu morava em New Orleans, um ano antes de me mudar para a Califórnia. Frequentava uma faculdade e tinha poucos amigos, dentre eles um muito especial que era o Paulo. O Paulo morava numa cidadezinha que não cabe aqui, pois nem no mapa existe, chamada Houma. Um belo dia vi em algum lugar o anúncio de um concurso nacional de poesia. E me interessei. Numa das visitas ao Paulo eu rabisquei num guardanapo uma curta poesia meio surrealista.

"Where was the wind when i wanted to fly?
Where was the three when I wanted to hide?
There were some stones very close to the tracks
Close to the veil where you left me your time
Now there's no time, and so is the veil
Gone with this wind we're supposed to be flying
Watching the road, blanking a mind
Where am I? Have you seen a life?"


Era uma poesia bobinha, feita só pra eu tentar esse concurso desconhecido que prometia um grande prêmio. Bom, a poesia foi enviada ao tal concurso e foi esquecida no guardanapo. Depois de meses eu recebi um aviso de qualificação para as semi-finais. Fiquei feliz. Mais alguns meses recebi outro aviso de finalista. Nesta época eu já havia me mudado para Los Angeles, a cidade dos angeles. Lá eu recebi o aviso de que havia sido selecionado como um dos vencedores do concurso. Engraçado. Achei que vencedor de concurso de poesia só podia ser um, mas mesmo assim, na minha ingenuidade fiquei happy.

Bom, junto com a grande notícia vinha um oferecimento de um livro que eu poderia adquirir caso quisesse ver minha poesia publicada. Esse era o "grande" prêmio. Achei esquisito, mas minha curiosidade (burrice) foi maior e por fim resolvi comprar por correio, claro, o livro de vencedores. Passou um tempo e de surpresa chegou o livro. Era um livro com mais de 1000 vencedores. (!!!) Este foi, definitivamente o primeiro golpe 171 que sofri na minha vida. Depois vieram outros mais brabos, mas não vêm ao caso neste momento.

Esqueci. Continuei com minha vida meio deprê, meio produtiva, cursando uma escola de música, tocando onde podia, fazendo alguns amigos americanos, convivendo com meus pouquíssimos amigos brasileiros...
Até que um dia na frente da televisão da minha sala, assistindo sei lá o quê me veio uma inspiração para o começo de uma música, que falaria sobre um personagem, personificação, de todos os sentimentos humanos em crise de vazio e solidão. Um personagem que se confundiria com a própria vida. Uma mão à espera de uma mão. E me veio a ideia de que ele poderia ser doce, ser ingênuo, meio mendigo, meio revoltado, meu "grunge" da época. Mas visceral e humano confundindo-se com os passarinhos e necessitado da asas de outrem. Alguém que pudesse mentir por fome. E que sua mentira fosse indulgência.

SUGAR MAN foi o que me ocorreu, e eu a compus embalado por qualquer enlatado de televisão.

Mas não consegui passar da primeira parte. Pra quem entende de música só consegui fazer a parte A. E isso ainda era ideia, não chegava a ser música. Algumas semanas, horas, ou minutos, (minha mente perturbada não me deixa lembrar) compus a parte B da música, ainda na frente da televisão - me relaxava, e não existiam computadores muito disponíveis pra brincar. E assim a música estacionou. Não evoluía de jeito algum. Eu havia chegado ao seu fim, mas que não era um fim. A questão é que essa parte B não conseguia se amalgamar à parte A, e assim retornar felizmente ao fim da música. Quando isso acontece é uma droga. Porque às vezes há inspiração e às vezes não há. Como tudo na vida.

Foi quando eu lembrei do tal poema, feito uns dois anos antes pra um concurso enganador, que teve dois livros, comprados por mim e devidamente jogados no lixo do prédio. Mas eu conservei o guardanapo, e com a poesia do guardanapo eu encaixei a melhor parte da música, criando enfim uma parte C bem original e que levava perfeitamente de volta à parte A, finalizando de forma coerente a música.

Feliz concurso 171, pelo menos me deu uma música!

Comecei a tocá-la nos saraus de Los Angeles, que são muitos, e a música se destacou tanto que pessoas às vezes me chamavam de SUGAR MAN. E choravam. E isso sempre me emociona muito mais que o riso.

Um dia um professor da escola onde eu estudava música me convidou para palestrar na sua aula de composição. Ele queria que eu contasse às pessoas  o processo de criação desta música tão especial para ele. Foi um dos momentos mais tocantes de minha vida nos EUA. Pois primeiro ele me fez tocar a música para os alunos, que sentavam em roda de mim. E ao fim da performance este professor chorava como criança. E eu adoro fazer os outros chorarem nessas condições. Quando acabei, fui sabatinado pelos estudantes, que possuíam a minha idade no geral e eram alunos como eu. Lembro-me de dizer que a música levou 10 minutos  para ser completada, e que minutos depois uma menina dinamarquesa me perguntou quanto tempo eu demorei para fazê-la, no que eu disse "uns meses". Ela não entendeu nada e quis saber que contradição era essa: como poderia eu dizer que demorei 10 minutos pra compô-la e logo em seguida dizer que demorei meses! (???) Minha resposta foi. "Querida. Eu demorei anos para conseguir fazer a música em 10 minutos."

Enfim, demorei 12 anos para voltar a tocá-la de novo, tamanha é a dor e alegria que sinto nesta música.

Esta é a história da música, que composta por mim, mais me toca:  SUGAR MAN.





Um comentário:

claudia cristina tonelli disse...

Há sempre um recomeço diante de nossos olhos, um horizonte esterilizado de mágoas, estradas nunca trilhadas, novos "hojes" para fabricar boas lembranças em outros "amanhãs". Esperança move a vida. Alguém com seu talento não pode perder a esperança. Estarei aqui, em qualquer lugar, mesmo de longe, torcendo por você, homem-doce.