quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Amélia

"Amélia, abra as perninhas , meu amor. Papai só quer ver uma coisinha... Papai precisa disso, Amelinha. Seja uma boa menina e abra as perninhas. Anda Amélia, anda, abre as pernas, que sua mãe já tá vindo. Amélia, porra, abre as pernas, se sua mãe te vir assim vai te botar no 'buraco'!"

Amélia olhava pra dentro. Todos os meninos olhavam pra fora. Aliás, todo mundo olhava pra fora, pois este é o normal. Mas Amélia olhava apenas para dentro. "Amélia! Como se soletra "adjacente"? Amélia! Acorda! Em que planeta você vive, Amélia?" E as crianças olhavam para fora, enquanto Amélia olhava para baixo, mas na verdade Amélia  olhava era para dentro. Em algum lugar dentro de si deveria haver alguma saída. Papai tava fora, Mamãe tava fora, e o buraco... Meu buraco era bem melhor do lado de dentro de mim mesma. "Amélia, mostra o buraquinho pro papai, vai? Só um pouquinho, Amélia, antes que sua mãe volte do supermercado." "Você quer leite, não quer? Papai vai te dar leitinho, Amélia. Papai te ama, você sabe disso..." "Acorda, menina! Vem aqui no quadro negro, vem soletrar "maluca". Isso aí, ma-lu-ca! E as crianças riam, e se refestelavam de prazer. "Amélia, o que deu em você? Não coma o giz, não! Tá maluca?"



Amélia  estava apenas nervosa. Quando a pessoa está nervosa, faz qualquer coisa. Quando não há saída, há sempre uma calçada, uma sarjeta. Uma pessoa crescida nem sempre cresceu por dentro. Nosso crescimento depende de outros. "Amélia, você quer leitinho do papai? Pra ficar grande e forte tem que mamar o leitinho do papai, Amélia! Sua mãe vai chegar e você não vai crescer, hein? Ai, Amélia , sua danada, cuidado com a boquinha, tem que esticar, tem que esticar, tem que esticar, isso....isso..... "Ai, Amélia, porque você é assim? Já é a quinta vez que te mandam para a diretoria falar comigo. Vou te recomendar à sua mãe um psicólogo para você. Suas notas são baixíssimas, seu rendimento social não existe! Amélia, você olha para mim, por favor? Estou mandando, menina! Sou a diretora desta joça e vou fazer de você uma pessoa custe o que custar, nem que tenha que chamar sua mãe aqui pela milésima vez!" Amélia olhava então para cima e pensava, e lembrava.... o buraco...o leite que fazia crescer... o papai...E rezava sem saber o que significava rezar. Tinha apenas sete anos de idade, mas rezava e pedia mamãe, mamãe....MAMÃE!

"Amélia." Dizia a mãe. "Que sujeira é essa na boca? Eu já te falei pra não tomar leite às escondidas! Leite é caro pra caralho, porra, que merda! Cadê seu pai, Amélia?" Amélia não sabia, mas sabia onde ele estivera quinze minutos antes. Papai, leitinho, papai, leitinho...como dizer? "Mamãe... o papai fez isso comi...." "Amélia!!! Puta que o pariu! Cala essa boca que te encho de porrada!" Amélia  calava, mas a porrada não, e depois ia pro 'buraco'.

Ninguém nunca conseguiu descobrir o que era o "buraco". Nem a instituição psiquiátrica, nem ninguém. Na verdade apenas uma pessoa sabia. "É, meu querido, eu já disse a você, se você for para a esquerda não vá. To te dizendo, é um conselho que te dou, companheiro. Porque a direita é má, é buraco, você sabe, eu já lhe contei, camarada, mas se você contar eu te quebro todo." Amélia levantava então da sua sarjeta na rua Raimundo Correia e andava a passos furiosos em direção ao café da esquina, em frente à banca de jornal, e gritava. "Eu sou o demônio! Eu sou o cabra-ruim! Vou fechar esse café! Vão todos para o buraco seus filhos de uma puta!" E continuava a gritar impropérios. O dono não ligava, pois sabia que as imprecações passavam de repente quando, sem mais nem menos, Amélia  se acalmava. "Vem cá Amélia, se acalme, sente-se aqui do meu lado. Eu prometo que não vou pela esquerda. Não vou cair no buraco que você caiu. Eu estou aqui e preciso de conselhos. Você é o demônio, não é? Então me dê um conselho, Amélia." Amélia , de novo se sentava no meio fio da sarjeta da rua e falava com o vento.

De noite Amélia juntava num canto seus pertences: uma caixa de papelão bem grande, e uns trapos de feltro e flanela velha que usava para se cobrir. Se enfiava dentro da caixa de papelão com tudo junto. Não gostava de baratas. "Amélia, tem barata no 'buraco'? "É bom que tenha, viu? Assim você aprende a não gaguejar besteiras sobre o seu pai. Tomara que uma te engasgue, sua idiota."

"Hoje vamos fazer uma experiência usando baratas em laboratório. Vamos testar a reação que ocorre quando o casco do inseto entra em contato direto com a substância alcoólica. Há uma desintegração líquida do..." Amélia chorava baixinho, olhava para baixo. Mas na verdade olhava cada vez mais para dentro. Era dentro de si que o mundo existia. Lá fora existia algo ruim, algo demoníaco, algo que não estava certo, não podia estar, Deus não deveria deixar estar assim, Deus não gostava dela. Por isso Amélia  se sentia o que sentiam dela. "Eu sou o DEMÔNIO!" "Vou fechar esse café!" " Seus filhos da puta!!!!

"Cadê seus pais, Amélia...? Perguntava o ser mascarado que a encontrava nas noites de quarta-feira, encostado sempre no poste perto do local onde ela armava sua caminha de rua. "Sai daqui, seu coisa-ruim! Meus pais morreram faz tempo! Eu tenho muitos anos, você nem imagina." Nem Amélia imaginava, mas já tinha sessenta anos. Quarenta e cinco de rua. "Amélia, o leitinho do "papi" tá acabando, sua mãe foi comprar fralda e está na rua (nunca mais voltou). Papai tá cansado, não tem mais tanto leitinho pra te alimentar. Amélia, você vai ter que se esforçar, Amélia. Amélia! Sua cachorra, vem aqui, sua puta, sua puta, sua PUTA CRIANÇA!!!!

"Amélia, quem te meteu nesta escola pública?" Você é tão feia que acho que vou te chamar pra sair, topa? "Amélia, isso aqui é um motel, querida. A gente vem aqui trepar. Você não vai dizer que depois de eu conseguir botar você, menor de idade, aqui, vai fazer cu doce né? Abre essa porra de perna. Vou te encher de leite, caralho!"

Saiu no rádio e não saiu na TV. O corte foi fundo, mas não matou. Amélia  foi jogada num buraco com grades, ficou uns seis meses lá sem julgamento, depois a jogaram fora. Já não falava coisa com coisa desde muito tempo. "Amélia, vamos desovar você aqui na Grota. A jaula ta cheia e não cabe mais ninguém. Tu ta mais arrombada que peneira velha. Vamos fazer um 'favor' pra você, Amélia. Tu é feia e desgrenhada para caralho, mas buraco é buraco. Tá olhando pra baixo porquê, é pra tomar no cu mais facinho é? Vem cá Josemir, vamos juntar essa aí e jogar no mato."

Amélia andou... andou...andou...e andou como pôde. Acabou chegando em copacabana. Primeiro dormiu na areia da praia, depois passou uns tempos na passagem que dá para o Bairro Peixoto até ser expulsa por uns pivetes que assaltavam, depois dormiu nuns bancos de praça, e um belo dia de sol, acabou adentrando pela Raimundo Correia, e ao passar por um prédio de grades negras viu sentado na sarjeta o seu futuro amigo conselheiro. "Amélia, ainda bem que você veio pela direita, esquerda não é legal." E assim conversaram e viram o tempo passar. E o tempo quando resolve passar passa mesmo. Sessenta anos! Sessenta anos de vida. "Vida coisa nenhuma! Seus filhos da puta! Eu tive mãe seus desgraçados! Eu sou o DEMÔNIO!!!!" E chutava as cadeiras do café e cuspia no chão sujo de copacabana.



Eu, sempre passava correndo, seguindo o meu caminho, e cada vez que eu passava por Amélia não sabia o quê era Amélia. Mas com pressa e sem saco, como ela nunca havia me pedido nem esmola, eu entrava no meu prédio e na minha vida de sempre. Mas os olhos de Amélia  eram vazios, outras vezes encolerados. Não há nada mais vazio e perturbador que a cólera alheia. A nossa a gente nunca sente...Mas a alheia é vazia. É um olho cheio de pupila, um olho quase de vidro, pronto para quebrar, um olho que implora explodir, pra que quem sabe, a alma não escape, não saia correndo e leve a loucura embora.

Amélia me olhava de uma forma esquisita, como que implorasse um contra-olhar, talvez de rendição ou de desafio. Mas eu passava ao largo. Sabia que era uma louca, e vestia o meu mais forte semblante, do tipo: "Nem chegue perto que to fervendo, sou pior que você, sai pra lá mulher". Tenho esse direito. Não quero amolação e não a conheçia. Porém me dava pena. Me dava um dó, e algumas vezes imaginei o que o meu anti-depressivo não faria por ela. Mas não faria nada....não para Amélia.

Eu sentia que ela ansiava por me chamar de demônio, ou por se proclamar demônio e me insultar até que seu 'amigo' mandasse parar. "Direita, Amélia , esquerda nunca. Olha o 'buraco'..."

Um dia olhei para aquela pessoa, dei meia volta, peguei um puff velho aqui de casa e levei para ela. Postei-me à sua frente, a olhei nos olhos endemoniados e disse: "É seu, toma". E deixei lá pra que ela dormisse melhor.

A vida de Amélia  tornou-se um inferno. Mendigos tentavam roubar-lhe o pufe. Pessoas olhavam e se admiravam. Até o porteiro tentou tirar o presente dela. "Amélia, dá a mãozinha, Amélia, papai vai te dar um brinquedo, você vai adorar..." "Amelinha, mamãe chegou e quer ter uma conversinha com você, senta aqui na almofada comigo, me explica porque na escola tão dizendo que você só olha pra baixo? Tá olhando pra cor da cadeira é, sua cachorra. Já pro 'buraco'!!!!!!!!" "Amélia, como se soletra 'pufe'? Não sabe? Vai levar uma coça da diretora, sua burra!" "AHAHAHAHAHAHAHAH!!!!! Amélia tem bunda grande, parece almofada! Amélia  tem bunda grande parece almofada!!!!" "Aí, companheiro, é só encostar ela naquele montinho fofo e mandar ver, depois a gente desova ela aí e foda-se essa feiosa."

Como a gente as vezes faz um mal sem saber, não é? Dia desses senti um cheiro de queimado. Bateu até bombeiro pra apagar o velho pufe solto em brasas na calçada. Era uma noite sem luar e Amélia havia-se ido. Como um demônio, nunca mais ninguém a viu.





6 comentários:

claudia cristina tonelli disse...

Lágrimas. Texto de um fatiador realismo, que embrulha não o estômago, mas todos os cantos da alma. Bravo. Corajoso. "Verdades "inconvenientes" aguardando a pena firme de um escritor a imprimir no papel a vida tal qual ela se apresenta, nesse mundo onde nem tudo é romance com final feliz...

Miupy disse...

Esse texto é uma esquizofrênica... Amélia foi estuprada pelo pai, abandonada pela mãe, sua fisionomia não coincidia nos padrões da sociedade e ainda era muito pobre...e varias vezes ela foi confundida com demônio não entendi o por que???? Mas se a finalidade desse texto é para dizer que a vezes fizemos algo de boa intenção e sem querer isso acaba se voltando para o mal... já ouvisse a historia do passarinho...

Era uma vez uma passarinho enjaulado, e durante toda sua vida cantava por liberdade, a desejava muito, e quando um dia, depois de lutar tanto, consegue sair da gaiola e cai na boa do gato... puff. Nesse caso a liberdade do passarinho veio para o mal.

Éhh a vida é mesmo assim meu caro!

PS: coitada da Amélia, foi tenso.

Alan Sommer disse...

Que bom que você gostou! :)

Fallahi disse...

É a primeira vez que leio seu blog. Já conquistou uma leitora. De resto, vamos ver no que dá.

claudia cristina tonelli disse...

Sempre dá em textos cada vez melhores, gente, sempre. É nisso que dá. Em textos perfeitos, elaborados com precisão e sensibilidade.

ALICE disse...

Chocante...nossa,ufaaa,que desgraça meu Deus,mas confesso,outra história interessante,porém triste demais,demais,bjsss