sexta-feira, 8 de julho de 2011

João

João correu, correu, correu, correu. E quando parou para pensar porque estava correndo, João parou. Então João nadou, nadou, nadou, nadou. E quando parou para pensar o porquê de estar nadando, João parou. Então João voou, voou, voou, voou. E quando parou para pensar o porquê de tanto voar, João parou. Então João caiu. E durante a queda João ficou a pensar o porquê de tudo o que ele fez. Correr...nadar...voar... parar... Então sem conseguir maiores explicações para a sua dúvida, João concluiu que se não tivesse corrido alguém teria chegado antes, que se não tivesse nadado teria se afogado, e que se não tivesse voado teria caído. Mas então, João se deu conta de que apesar de todo o esforço João estava mesmo caindo de qualquer maneira. Então João pensou que talvez se ele tivesse começado pela ordem inversa, ou seja: voar, nadar, correr, ele não estaria nesta situação, e não estaria em mal lençóis, pronto para se esborrachar no chão. Aí João percebeu que pelo tempo já deveria ter se esborrachado há muito. Então João decidiu comer. E João comeu, comeu, comeu, comeu. E quando acabou a comida João bebeu, bebeu, bebeu, bebeu, e quando acabou a bebida João fumou, fumou, fumou, fumou. E quando acabou o cigarro João percebeu que havia um problema. João não estava caindo. Porque se afinal não há chão, não há queda, não é verdade? Então João sorriu, sorriu, sorriu. João então se sentiu sorrindo muito sozinho, e achou que a alegria deveria ser compartilhada. Então João deu as mãos para si mesmo e se abraçou. E sentiu seu corpo junto ao seu próprio corpo, e suas mãos sentiram seus próprios calos, e falhas, e rugas e dobras. Então João pensou, pensou, pensou. E chegou à conclusão que mãos devem servir para algo mais do que abraçar, e então João começou a escrever, escrever, escrever, escrever, escrever, escrever, escrever...e escreveu tanto, mas tanto que João pensou. Porque será que ninguém lê o que eu escrevo? Então João pensou que talvez as pessoas lessem mas não gostassem muito de comentar, embaixo de suas escrituras, as suas opiniões. Talvez por medo da exposição, ou por indiferença, ou por que não gostassem dos escritos, ou porque João não era bonito. Então João decidiu falar, pois o som é inexpugnável. Falou, falou, falou... e aí aconteceu uma coisa diferente. João decidiu parar. Pois nada valia a pena. Nem correr, nem nadar, nem voar, nem cair, nem escrever, e nem falar. Então pensou em cantar. Levantou-se da sua cadeirinha de balanço, e pegou seu violão, antigo, antigo. Tão antigo que era mais velho que ele mesmo pois pertencera ao seu avô. Só o violão possuía uns 70 anos. Violão que não era tocado há mil anos. Imagine então a idade de João! Do alto dos seus 98 anos de idade João tocou um acorde maior, que é o som da felicidade mais pura que há. E pelos seus dedos trêmulos soou uma música de felicidade, e também de corrrida, e de nado, e de queda, e de abraço, e de amor. Amor? Há quanto tempo não ouvia essa palavra. Nem pensava nela. Palavra tão antiga quanto o seu violão. Então João se deu conta de que ainda sabia um acorde antigo. Tão antigo que remontava toda a civilização humana. Então João, espalhando seus trêmulos e incertos dedos pelas cordas do instrumento, amou de verdade um sublime amor abstrato... E de dentro desse acorde fluíram lembranças fugazes, que aos poucos iam se tornando plenas e João percebeu que caíra sim. Caíra em algum lugar e que não sentira dor. E lembrou-se de sua avó, que se fora um belo dia sem avisar. E lembrou que naquele momento João realmente não sabia o que era queda, nem nado, nem nada. João não sabia nada. Era um menino. E lembrou de sua infância na Ilha do Governador, quando as águas eram azuis como seus olhos agora embotados de tempo. E João pensou no tempo que passou pensando no tempo, e percebeu que o tempo passara enquanto ele pensava no tempo. E isso deu raiva a João, pois se sentiu enganado, ludibriado pelas suas moléculas, pelas células de sua pele que não avisaram nada. Nenhuma parte de seu corpo gritara: "João, o tempo não há! Mas cuidado, João, que ele passa mesmo assim." Então João lembrou-se de quando brincava com sua irmã numa casa de pano de mentirinha, de esconde-esconde, e dos aniversários onde era convidado, e primeiro a chegar, tímido e com medo na hora da brincadeira da cabra-cega. João lembrou de seu cachorro maluco que um dia falou  (pelo menos proferiu algo) e que apenas João percebeu. E lembrou-se do dia em que colou na parede da casa da sua mãe uma caixa de papel convidando as pessoas a deixarem um trocado por vontade própria. Lembrou-se que deu certo e ficou "rico". Lembrou-se da fazenda onde durante a tenra idade acompanhava sua mãe cavalgar de longe. E lembrou de uma música. Música que ainda sabia tocar no violão. Resquício de épocas endiabradas e ácidas: Dizia assim: "Um dia eu fui nadar / Um dia eu quase me afoguei, / Mas segurei meu fôlego, / Bati as pernas / E mexi meus braços e nadei". João percebra que as memórias so voltam por causa de outras memórias que só voltam por causa de outras memórias e que estas só voltam por mais memórias e que esse é o segredo do pensamento. Que o fez correr, nadar, cair, parar, abraçar e enfim lembrar-se do seu violão, que por fim lembrou-o da música, que por fim (não existe fim) o lembrou da esperança, e do momento em que viveu uma situação em que, ainda bem garoto, sem saber nadar, quase se afogou numa piscina enquanto sua mãe fazia o almoço e tirara os olhos dele por um segundo. E lembrou-se que basta um segundo para se morrer. Mas João não morreu, porque seguiu a letra da música, e bateu seus pés, mexeu seus braços, respirou fundo e se salvou sozinho. E tudo isto antes mesmo de conhecer a tal música! E João pensou "que coisa louca é essa vida!" Que confusão de fatos e acontecimentos e músicas e quedas e violões, todos numa linha de tempo que muitas vezes pareceu a ele falsa, pois do alto dos seus 98 anos João percebeu, pela primeira vez que tudo aconteceu ao mesmo tempo. Sentiu saudades de seu avô... e uma lágrima pousou nos seus olhos. Pousou? Será que a palavra certa não seria "brotou" nos olhos? Sim, mas essa lágrima era como um passarinho. E assim João se foi, segurando firme em suas asas, com ele, num segundo apenas.

6 comentários:

Rachel Krishna disse...

Muito bom o texto, Alan! Parabéns!
Vc tem um pouco de João?

Alan Sommer disse...

Obrigado Rachel! Quanto a se eu tenho um pouco de João a graça é vocês nunca saberem. :)

Beijo!

Claudia Bistrichi disse...

Muito bacana a historia de João,
eu gosto de varias outras que tem também aqui neste blog, parabéns Alam você tem bastante talento para escrever, tanto poemas quanto histórias, faz um livro de seus contos ou uma historia mais extença, irá valer a pena com certeza!!!!!

Alan Sommer disse...

Obrigado Claudia! Fico envaidecido... espero que você divulgue para os seus amigos.
beijos
alan

claudia disse...

Não disse, Alan? Sempre disse que seu material dá um livro...e poucas pessoas o conhecem como eu ;) siga em frente, meu querido!

lidilobo disse...

texto riquíssimo e emocionante. brotou outra lágrima

(mas talvez seja fácil entender porque as pessoas não comentam... me sinto meio idiota ao dizer "riquíssimo e emocionante"... esse é o tipo de texto para ser sentido. apenas sentido).