sexta-feira, 10 de junho de 2011

Calor e Frio

Todo dia frio me faz pensar no que é pior: o frio ou o calor. Sensações antagônicas que remetem a sensações tão diferentes, porém às vezes tão parecidas. Ao tocar uma superfície qualquer muitas vezes sinto sem saber o frio ou o calor. Quantas vezes tive a impressão de me queimar quando na verdade eu ardia numa superfície gelada? E o susto é exatamente o mesmo não importando a sensação. Só após um microlésimo de segundo eu podia me dar conta da real sensação que me atingia.
Tão diferentes, o fogo e o gelo exercem o parecido na pele. O contato com o fogo arde e queima a superfície. Mas o contato com o gelo também pode queimar e arder. Pode? não! Queima e arde. São ardências diferentes, com resultados outros, porém, reais. O fogo rouba o líquido que existe em nós. Nos desidrata de forma imediata, inflinge uma reação quimica. O gelo não. Porém tudo dentro de uma geladeira, ou principalmente um freezer também desidrata. Existe até uma técnica chamada liofilização que consiste na desidratação de tecidos utilizando uma temperatura abaixo de 40 graus celsius. No final das contas o ser queimado morre tanto quanto o gelado.

Quer dizer...claro que não! Pois há quem se congele pensando em durar para sempre, ou pelo menos mais uns 200 anos, se é que isso pode se chamar "durar" no sentido vital da coisa. Mas definitivamente não viramos "carvão" quando congelamos, nem ficamos "verdes" quando queimados. Há algo existente no efeito desses dois elementos (água e fogo) que são tão contraditórios que me faz muitas vezes pensar que a importância mística deles não reside neles (os elementos), mas sim na sensação e efeito que eles provocam. O elemento em sí não passa de um quadro, de uma obra de arte, morta, incapaz de derreter ou esquentar algo.

Há também uma diferença engraçada entre o calor e o frio. Para o frio existe o zero absoluto, situação onde a temperatura chegaria a 273,15 graus celsius negativos, e que configuraria a falta de energia total num corpo. Já, com relação ao calor, não há limites para a quantidade de energia que um sol pode ter, consequentemente sua temperatura máxima é o inconcebível.

No entanto o fogo é inexplorável, enquanto o gelo pode-se ir além. O fogo que nos queima e machuca e nos faz construír corpos de bombeiros é inexpugnável e vital. O frio é sinônimo de letargia, de frigidez, de chatice. Morrer com gelo é virar estátua, morrer com fogo é se espalhar pelos ventos. No entanto, em nossa vida cotidiana, o que é preferível, o calor ou o frio? Polêmica questão, com certeza. Um europeu prefere a praia do Rio, nós daqui fugimos para Teresópolis quando podemos (quem pode, pode, aliás...). Mas uma coisa é certa, é mais fácil aturar o frio que o calor. Mas deve ser mais difícil aturar o fogo que o gelo. Não fosse assim os infiéis não teriam sido executados pela "santa" Inquisição em fogueiras, mas sim enfiados em sorvete. O que leva a crer que fogo é bem diferente de calor, e que gelo é bem diferente de frio.

Talvez por isso existam pessoas foguentas por fora e geladas por dentro. Ou mulheres frígidas na cama, e fantásticas no gerenciamento de empresas. Homens carismáticos e calientes ao mesmo tempo que enigmáticos e fugidios.

Será o amor quente ou frio? Será que a paz é quente ou fria? Será melhor a estátua "iceberguizada" de um Moysés de pedra esculpido por Michel Ângelo, ou o Vesúvio transformando pompéia em cinzas eternizadas pelos ventos italianos?

Um depende do outro. Muitas vezes um fósforo acende a droga que vai esfriar completamente os neurônios de um pobre coitado qualquer. E esse pobre coitado, por incapacidade de racionalizar, vai esquentar com beijos a boca de uma finlandeza que apesar de vir do quase Ártico vai foder com muito mais intensidade que uma mulata do Salgueiro, com todo o seu rebolado quente que ela possa ter, e esses dois vão dar orígem a um fílho híbrido que será moreno, terá os olhos pálidos e frios dos caçadores de ursos das estepes frias, porém vai vender maconha na esquina do inferninho mais quente de copacabana, onde um policial se corrompe da forma mais fria para poder pagar o gás que sua família vai usar pra fritar a moela de um bicho que morreu pelas mãos frias de um açougueiro que minutos antes amolou a faca esquentando-a num pedaço de mármore frio da calçada do bairro de Bangú, que é tão quente que foi colonizado primeiramente por índios e depois por inglêses frios de doer.

Enquanto escrevo essas linhas sofismadas e enfadonhas existe em algum lugar um rei à espera de uma raínha, e uma raínha à espera de um rei. Talvez se chover amanhã eles se encontrem numa esquina, sob uma marquise, o rei sozinho, sem seu séquito, fugindo da chuva vai tropeçar no sapatinho molhado da raínha e se espetar no seu guarda chuva rosa. Talvez se fizer Sol, a praia de Ipanema os distraia tanto que  os dois se percam no meio da multidão suada.

Existe um livro que trata os calores e as friezas dos afetos humanos. E esse livro é espetacular, e uma vez eu escrevi uma música sobre o tema do livro, mas faz tempo e se perdeu nas gavetas frias do meu quarto quente. Eu apenas sei uma coisa: que meu amor vai além dessas duas sensações tão puerís. E que deve, com certeza existir tantas outras sensações similares, porém apenas conhecidas por Deus. E que nos afligiriam e nos inebriariam e nos queimariam não a pele, mas a aura, e que talvez a queimadura fosse benéfica, sei lá. Digo isso porque no fundo do meu ser sei que existe mais que fogo e gelo, e que meu amor pode ser frio e quente, mas é amor verdadeiro, e todo amor verdadeiro é um fruto do desconhecido. É talvez a única sensação impossível de indentificar apenas colocando a mão. O amor é a reunião dos sentimentos. É o calor e o frio se envolvendo numa eterna disputa, num eterno engalfinhamento de pernas, de células, de mentes e fornos e congeladores, chá e Coca-Cola. Neste ponto não existe calor nem frio. Existe apenas o microlésimo de segundo que se passa até que se perceba que existe amor na ponta de nossos dedos.


Um comentário:

claudia disse...

Suas "gavetas frias" guardam segredos capazes de aquecer qualquer alma hipotérmica...maravilhoso!