quarta-feira, 18 de maio de 2011

Tomadas

Quando eu era menino e olhava pras tomadas nas paredes elas também olhavam pra mim. Eram como dois olhinhos me desafiando, troçando a tocá-los, então eu colocava meus dedinhos naqueles olhinhos de carinha de robô e tomava aquele choque de 110 tão comum como surra de mãe que estremece mas não mata.

Hoje não sinto mais esses choques infantís. Os elétricos continuam, e por isso não coloco o dedo nas tomadas das paredes, mas sim nas da vida. Os da vida são mais sinceros. Os olhinhos eram lúdicos, mentiam mesmo, diziam que eu ia morrer e eu não morria. Hoje eu morro todo dia sem nem tocar numa tomada.

Uma vez, menino, caiu uma chuva danada no momento da saída da escola, e lembro eu, que naquele dia eu e um amigo havíamos decidido ir para casa a pé. Geralmente pegávamos o 433 de Ipanema pra Copacabana, onde eu morava. Mas naquele dia decidimos andar, e como éramos meninos, e a distância era tão lúdica como as tomadas das infâncias, pareceu uma andada de cidade inteira. Hoje ando países e nem sinto. Mas voltando... lembro que, por algum motivo, fiquei descalço, e no meio do caminho, a umas duas ruas de casa encostei a mãozinha num poste para descansar. Não é que levei o maior choque da minha vida?! Meu fôlego foi todo embora, tremi como se um terremoto passasse por mim, e botando a mão no peito, senti meu coraçãozinho quase interromper seus batimentos. Juro até hoje, sem nunca saber se teria mesmo sido, que quase morri, e que se não fosse apenas um menininho, provavelmente teria deixado o mundo naquele momento. Passada a tontura me recuperei e me encaminhei para casa.

Nunca esqueci aquele dia, nem o poste, nem o choque, nem o que senti. Até hoje tenho receio de tocar em postes, e descalço, e com chuva, não toco nem que me paguem.

Mas foram muitos choques que tomei na infância, e ainda tomo. Acho incrível como podemos existir num universo onde tanta energia pode te matar numa fração de segundo. Choques reais, ou melhor dizendo, choques de realidade, choques reais, aqueles que você aprende com a vida, tocando nos postes e morrendo. Hoje todo choque mata, ou pode matar. Na minha meninice os choques por piores que fossem eram choques lúdicos. E quando não havia jeito havia a minha mãe pra me salvar. E mal eu sabia que isso devia ser um choque de poste grande pra ela. E era mesmo. Mas os choques lúdicos da miha infância também deixaram marcas inexpugnáveis muitas vezes até com anos de análise intermináveis. Minha analista outro dia me deu alta. Disse que eu já analisei tudo que podia, que agora é botar a mão na tomada e ver no que dá. Cheguei à própria conclusão de que são anos de análise apenas para se chegar à entender que a coisa é simples. A vida é pra se levar choques. Mesmo quando eles podem matar.

Mas não é de morte que eu tô falando, porque não pretendo morrer nunca. A questão é que tomei tanto choque de tanta tomada diferente.... e hoje sei tanto dos traumas que tomei nos choques da infância, que acho que minha analista está completamente equivocada, e eu não vou ter alta nunca.

Camus dizia que a vertígem é na verdade a vontade de pular. É por isso que eu botava a mão nas tomadas. Eu queria saber o que ia acontecer. Eu achava que ia morrer se botasse, mas eu também sabia que não ia morrer coisa nenhuma, pois minha mãe nunca ia espalhar armadilhas pelas paredes que pudessem me fazer mal.

Mas levei choques que não tive coragem de contar pra ninguém (a não ser minha psicanalista que continua comigo). Choques de uma infância lúdica, choques que matavam por dentro, e que eu tinha vergonha de levar. Desses eu, muitas vezes não tive a coragem de "testar" a morte. Pois esses não haviam sido espalhados pela minha mãe pela parede da minha casa. Esses não acendíam luzes. Esses as apagavam, e me davam medo de morrer de verdade.

Que se fodam as tomadas.

5 comentários:

Letícia disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Letícia disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
claudia disse...

Alan,

Você está maravilhoso, e falou de coisas presentes na vida de qualquer pessoa com extrema delicadeza, coragem, rico não só de metáforas, mas, de sentimentos!
Não quero parecer suspeita, mas não pare de escrever! Você de fato é muito mais e além do que se possa imaginar.
Bjs,
da sua Claudia.

Letícia disse...

:)

Gisele Aguiar disse...

A cada texto que leio do Alan, fica mais e mais impressionada o quanto de experiência de vida, de felicidade, de tristeza, de esperança, de falta de esperança este cara tem dentro dele. É ISSO MESMO, ele tem "um mundo" totalmente contraditório dentro de si. Não que isso seja ruim, não mesmo, acho isso fantástico.c'est la vie ( não sei francês, tomara que tenha escrito certo).A vida não é, nem nunca será uma linha reta, ela é feita de perguntas, de respostas, de não-respostas, de novas perguntas, de altos, de baixos....O que a gente pode tirar de tudo isso? ( O que ficou da sessão....Como diz meu psicanalista). Que , afinal, o que interessa é ter uma estória de vida pra contar no final. ( final????rs , daí isto já é assunto pra outro texto do meu amigo Alan...)