segunda-feira, 30 de maio de 2011

Jurandir com a Macaca

Jurandir trabalhava no zoológico da cidade. Tinha 55 anos de idade, cabelos grisalhos em forma de concha. Não tinha família, nem amigos. Morava perto do zoológico num buraco podre da cidade. Adorava pipoca e jujuba, mas quase nunca comprava porque sua televisão pifara.

Sua função principal no zoológico era varrer. Varria o chão com carinho fraternal e um saco-cheio de marido cansado da rotina. Usava uniforme azul e tênis por onde entrava água pelo bico em dias de chuva. Catava folha por folha, não falava com ninguém por vergonha. Era extremamente tímido e carente. Nunca na vida casara e seu maior sonho era ter um filho, mas se contentava com um porquinho-da-índia que roía suas meias já escurecidas pelo uso.

Passava muito pela jaula do leão, e achava a zebra o bicho mais inteligente de todos. Se dava melhor com os animais. Adorava o elefante e ficava extremamente zangado quando o público irresponsável zombava do macaco punheteiro. Mas não reclamava. Tinha medo de perder o emprego de sua vida, pois o chefe era mais punheteiro ainda.

Enfim, sua vida era insôssa. Não tinha mulher, Nem nunca uma mulher o teve dignamente. Jurandir era daqueles que precisavam de um remédio antidepressivo qualquer, ou talvez até um excitante, mas sua condição não suportava esses gastos luxuosos. Sofria de falta de ejaculação, e a ereção era coisa rara, quase nula, não existente. Por isso não dava muita importância a mulher. Já havia abstraído do sexo oposto. Sua auto-estima era péssima, e considerava sua idade o fim da vida. Sua vida era o zoológico e o zoológico uma vida inteira.

Um belo dia chegou no zoológico uma nova gorila. Fêmea, claro. Enorme, forte, peluda, um colosso de animal, vindo direto da África, comecara instantaneamente seu processo de adaptação. Jurandir ficou encarregado de deixar as redondezas do cativeiro muito limpas, mas foi advertido a não interagir com a fêmea gorila, que podia ser, e era perigosa durante esse processo de adaptação.

Passou um mês, e Jurandir cumpriu muito bem sua função burocraticamente. Nem olhava muito pra dentro da caverninha construída para a gorila, embora ela sempre se ressabiasse quando da sua aproximação ainda que longínqua, vassoura na mão, às vezes um ameaçador ancinho, com o qual, pacificamente, Jurandir colhia as folhas pelo chão. Jurandir não percebia, mas os olhos vermelhos da gorila se amarelavam ao vê-lo.

Um belo dia aconteceu um fato grave. O responsável pela alimentação dos animais símios sem querer esqueceu a chave da cela da gorila na fechadura, e a gorila, sendo meio humana, percebeu, abriu e fugiu. Trilhou o zoológico sem ser vista na escuridão da noite, e caiu nas ruas da cidade.

Não se sabe como, mas o bicho Homem tanto despreza os animais que fica difícil entender como foi que a gorila encontrou o prédio onde, num buraco, sobrevivia Jurandir. Deu uma porrada no porteiro e subiu pelas escadas até o oitavo andar onde ficava seu conjugadinho. Com um chute arrebentou a fechadura da porta e entrou.

Parecia uma visão do inferno aos olhos de Jurandir, aturdido e paralisado. Vendo aquele imenso animal à sua frente só conseguiu se imaginar pulando pela janela ou sendo esmagado pelo pescoço por mãos enormes e felpudas. Mas pular do oitavo andar não era uma boa e ao olhar bem para o animal Jurandir notou em seus olhos algo que não via desde garoto e que parecia amor. Os olhos vermelhos do monstro selvagem haviam se tornado amarelados e pareceu-lhe que uma lágrima brotara num canto. O monstro então andou calmamente em direção a Jurandir e o pegou no colo, sentou no único sofá que havia no conjugado, e o afagou. Neste momento Jurandir até lembrou de sua mãezinha, gorda e falecida, em um vilarejo de minas há 15 anos. E sentiu falta de medo.

Só que a grande macaca era freudiana, e começou a querer algo mais com Jurandir. E colocando jurandir sentado, quase quebrou-lhe as juntas ao subir em cima dele num esfrego de amor carnal nunca visto dantes entre um símio e um ser humamo, se é que existe essa diferença.

Jurandir, que era carente, e acima de tudo impotente, gostava de mulher e não de macaco, porém impossibilitado de se mover, não sabia mesmo o que fazer e começou a gritar por socorro.

Neste momento o porteiro, recuperado da agressão e do choque, junto com a polícia, subiam as escadas em direção ao grande macaco que urrava de tesão no oitavo andar. (Só que óbviamente eles não sabiam que era tesão).

Foi neste momento, segundos antes de chegarem ao oitavo andar que a imensa e fogosa gorila de forma indecorosa e inimaginável proferiu! " Te dou um milhão de reais se você me comer agora". E naquele momento, Jurandir, pobre, quase um miserável, e especialmente broxa, após anos e anos sem reação viu seu pinto depois de anos, subir! e com toda a força descascou a banana com a gorila enorme, sabe-se bem como.

E no momento em que a polícia junto com o porteiro chegavam no conjugado, via-se Jurandir no colo na gorila, agarrado ao seu pescoção, pulando pela janela, por um cabo desligado da Light como se fosse um cipó da selva africana.

E assim acaba a historinha, afinal, um amor e uma cabana nunca deram certo.

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