domingo, 26 de outubro de 2008

Um dia de votação na vida de um carioca verde de medo

Você acorda de manhã, bem cedo mesmo. É dia de eleição para prefeito do Rio de Janeiro e você quer ser ver logo livre desse estorvo democrático. Você sabe que essa obrigação na verdade não tem nada a ver com democracia, quanto mais com realização da cidadania, e você na verdade gostaria que enfiassem a constituição no cu, mas deixa pra lá. Você acorda e na verdade, ao contrário das últimas eleições, desta vez você está até ansioso, esperançoso, podendo-se dizer até um tanto feliz, porque acredita no Gabeira, que é o seu candidato. Na última semana você até desperdiçou um pouco do seu tempo ocioso para fazer um pouquinho de campanha para esse candidato, Gabeira, em quem você realmente acredita. Você não saiu nu pela rua gritando o nome do Gabeira, mas você mandou e-mails para os amigos iniciando uma possível corrente daquelas chatas, mas nesse caso democraticamente útil. Ah... quem sabe agora o Rio não terá uma chance de crescer, de dar adeus aos governantes enfadonhos e sacanas, suas mãos nefastas em cima do dinheiro público, seus semblantes canalhas, tudo isso evidente nos seus traços de cariocas criados nas quinas dos subúrbios, seus olhinhos sempre meio puxados como que sempre mirando microscópicamente o interstício, a fresta onde o dinheirinho se encontra. Você sabe que o Gabeira não é assim. Pelo menos espera que não seja assim. O Gabeira usa tanga que é igual a mulher que também usa tanga, que resulta no Gabeira sendo igual a mulher, e mulher é um negócio legal, silogismo democrático, isso aí. E essa espera já dura um mês. O mês do segundo turno foi marcado por altas discussões entre amigos, e a certeza da vitória do Gabeira, ao ouvir um porteiro falar a outro numa rua dessas enquanto você passava a caminho da praia: acho que vou votar nesse putão do Gabeira. Então você acorda cedo e vai pra rua votar. Na verdade você não acordou cedo nada. Você chegou da esbornia, onde passou com uma menina, que também é Gabeira por sinal, claro!, e você tentou dormir um pouco mas não deu, a emoção da votação era grande então porque não ir ao encontro das urnas logo, acabar logo com essa ansiosa liberdade compulsória? Foi o que você fez, e agora você se encontra acordado se vestindo para o grande momento de apertar o botãozinho e ver o Gabeira levar o caneco pra casa. Você entra no carro e vai à sua zona eleitoral que fica longe por motivos que não convém a esta história no momento. Você dirige quilômetros pelas ruas vazias da cidade e aí você se dá conta de que não é dia porra nenhuma, nem cedo droga nenhuma, e que você está tão atrasado para a votação que vai ver é por isso que de repente esse vazio na avenida das Américas culminou num puta trânsito do caralho, um congestionamento automobilístico de proporções cardíacas e que talvez você não consiga votar no Gabeira a tempo, sem que a cidade antes faça uma ponte de safena na Avenida Niemeyer. O que fazer? Pobre do Gabeira, pobre de você? Será que vai dar tempo de ter um tempo? Eis que surge uma brecha no asfalto e por um destino de filme de ação você consegue estacionar seu carro em Copacabana e correr para a sua zona eleitoral. Você chega na zona eleitoral na hora certa, no derradeiro momento em que ela vai fechar, seu bravos trabalhadores e felizes voluntários designados pelo modelo democrático brasileiro o aguardam exaustos e felizes por faltar apenas um minuto para o término da eleição. No momento em que você assina seu nome na lista de participantes é que você fica sabendo através de uma menina bonita e gostosa de olhos verdes e cara de safada, voluntária da mesa, que a votação está empatada e que resta apenas um voto a decidir o futuro do Rio de Janeiro, e que este voto é seu. O voto de Minerva é seu afinal! (Importante dizer que isso tudo não seria possível se não fosse a maravilhosa computação instantânea dos votos eletrônicos que funcionam melhor do que na realidade, e apenas nesta historinha). Você, pasmo, de repente se vê frente a urna, o voto de minerva na mão, o silêncio na alma, o olhar da menina safada na cara, o número do candidato na cabeça, e uma multidão inteira esperando ansiosamente pela sua peremptória decisão. É agora, cara! A bola está nos seus pés, e neste momento até o Gabeira está a te mirar, implorar, vote em mim, seja mais um, dê uma chance ao Rio, a sí mesmo, à turba intelectualóide do baixo gávea, às massas da pizzaria Guanabara, ao fim da dengue na zona oeste, às plantinhas, a alguém, pe-la-mor-de-De-us! Número 43! Número 43! Número 43! O PV e o povo verde de medo pede! Você olha para o povo com orgulho de não ser um gorgulho como alguns são, e caminha, pisando com decisão para o lado obscuro da urna, onde há a solidão do cidadão. E aí você de frente para a geringonça eletrônica afia o dedo, pensa no Gabeira, número 43, e é aí que de repente algo acontece e você não sabe o porquê, mas você vota no EDUARDO PAES! Faz-se uma comoção, pessoas choram, tentam te linchar, mas entre cuspidos e sacos de arroz você foge, entra no seu carro e some do bairro.


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Que pena que o Gabeira perdeu.

Não se sabe que tipo de governo ele ia fazer, mas a sua eleição seria uma demonstração de repúdio à continuidade inerte e antiga do Rio de Janeiro.

O Gabeira fez uma campanha bonita, limpa de porcarias pelas ruas, pelas praias... sem a invasão sonora e visual da campanha de outros, invadindo nossos ouvidos, nossos olhos, nossa paciência...

Hoje de tardinha, quase noite, eu fui dar uma volta na praia da barra e fiquei, mais uma vez, abismado com o grau de sujeira e falta de educação do carioca médio, que frequenta a sua tão valiosa praia de domingo.

Na areia fina da Barra, garrafas em profusão, canudos aos milhares apontando o céu, restos de comida, latas esperando às ondas servirem de comlurb natural...

O Rio de Janeiro vive há anos o dilema da cidade que perdeu o seu título, perdeu o seu valor...
É uma cidade que parece que quer, mas não quer ser melhor, e sempre morre na praia da ingnorância.

O carioca é um ser mimado pelo império, ultrapassado pelos novos tempos, romantizado pela maladragem do "bem" que não é mais do bem, e nunca foi realmente.

Um povo que sofre nas filas da dengue, mas é incapaz de fazer uma revolução, ou mesmo optar por um governo alternativo, novo, diferente.

O carioca é um porcalhão que suja a própria areia onde senta.

É claro que esse carioca na hora da urna não ia votar no Partido Verde. Ilusão minha...

Ingenuidade de quem esperou...

O carioca, na sua maioria, não está preparado.

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