quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Argemiro perguntou pra Dorotea: com quantos barris se faz uma taça de vida?
Argemiro era pobre. Dorotea também.
Argemiro morava numa casa que era um buraco. Argemiro perguntava para Dorotea: com quantas casas se faz um buraco?
Dorotea era parda, tinha um olho azul de luz e o outro azul de escuridão.
Tinha cinco filhos e uma cadeira. Redes penduradas em paredes de taipa e um furo na alma.
Com quantos furos se faz uma alma?
Dorotea catava a comida, Argemiro plantava o que podia. Os filhos morriam de vento. Noite de vento, noite dos mortos, dizia o poeta. Com quantos mortos se faz um vento?
Dorotea ouvia música. A música do chão, da terra crescendo, se espalhando, cobrindo tudo. Essa terra que dá e toma. Argemiro tocava uma viola de uma corda só. Mas sabia o que era música, música é farinha doce. Um dia passou um avião por cima do costado. Bateu um vento do oeste que deixou o piloto maluco. Abriu-se a portinhola e choveu dinheiro na cabeça dos descabeçados.
Com quantos dinheiros se faz um Argemiro e uma Dorotea? Só sei que hoje dormem melhor. Não é sono de morte, é sono de vida. Com quantos barris de faz uma taça de vida?

Um comentário:

Anônimo disse...

Adorei! Parabéns!
Bjs,
luliX